domingo, 21 de março de 2010

Su Ming deve viver.



Tibete, 10 de Março de 2003

O planeta deveria ser divido em dois. Ou já está... Eu fugi para a outra metade.
Durante vinte e cinco anos comandei exércitos e amealhei seguidores porque não sabia seguir ninguém -apenas a minha raiva. Confundiram o meu ódio com determinação, o meu medo com coragem; fui uma bússola estragada durante um quarto de século, guiando milhares de almas até à sua perdição.
Quando a minha raiva, o meu ódio e o meu medo deixaram de asfixiar a minha memória, fugi. Cavalguei até os meus cavalos morrerem, naveguei até o oceano engolir o meu barco, corri até os meus joelhos tocarem a neve deste chão onde me encontro. Vivi aqui até agora. Deitado nesta neve, vi os símbolos do zodíaco darem dez voltas completas às duas metades do planeta, mas o vento trouxe-me uma notícia que me obrigaria a voltar...
Su-Ming havia sido raptada pelos meus (e)ternos inimigos, um novo exército esperava as minhas ordens...
Parti para a guerra, na outra metade do planeta, sozinho. Su-Ming era a minha bússola e eu não deixaria que a agulha do meu amor guiasse mais almas para uma morte certa.
Desenterrei as minhas espadas da neve, derreti a minha armadura reluzente, gravada com um nobre brasão de raiva e ódio e deixei que as deusas do amor forjassem uma nova, à volta do meu coração.
As minhas espadas voaram no caminho para o castelo negro onde prendiam Su-Ming. O meu sangue confundia-se com o de centenas que deixei para trás, a contemplar pela última vez, os símbolos do zodíaco. Caminhei de armas em punho até à torre onde Su-Ming se encontrava e deparei-me com o pior dos inimigos - aquele que conheceu as nossas espadas não no campo de batalha, mas na intimidade do nosso lar.
A luta durou horas, pois ele antecipava todos os meus golpes e atacava todos os meus pontos fracos.
Segui, por fim, as ordens do general que bombeava dentro de mim o sangue que me restava.  Virei costas à luta. Corri para a porta que encerrava Su-Ming na escuridão e num só golpe, quebrei as correntes que a impossibilitavam de voar. O meu maior inimigo enterrou a sua espada - forjada pelos meus medos e confissões - nas minhas costas.
Boiava no agora límpido, oceano do meu sangue, quando vi Su-Ming ocultar com as suas asas os símbolos do Zodíaco, meus companheiros nas duas metades do planeta.

Quanto a ti, caro soldado amigo que me seguiste até este lugar, se algum dia contares a minha história a alguém, termina-a com estas palavras: “Precisamos de um exército quando somos levados para a batalha pelos cavalos da raiva. Nas asas do amor, mil exércitos habitam em nós.”

O General morreu. Su-Ming está livre.

Filipe Lascasas


Hans Zimmer - Injection

segunda-feira, 15 de março de 2010

O Homem do Lixo


Acordava enquanto todos dormiam. Calçava as suas luvas e saía para as ruas do mundo.
Até o Sol nascer, levava o lixo que as pessoas deixavam nas suas portas.
Um dia, cansado e irremediavelmente sujo, entrou no oceano para se lavar e desapareceu.
A dúvida levantou-se.
Ninguém quis saber o que lhe aconteceu mas sim a razão pela qual o Lixo permanecia, dia após dia, em frente às suas portas. Alguns, mais envergonhados, ou simplesmente zelosos, começaram a enterrar o Lixo nos seus quintais e jardins. Mas quando a relva desapareceu e todas as flores morreram, o cheiro a podridão tornou-se insuportável e inevitavelmente visível.
As Ratazanas e todas as criaturas das trevas deixaram então de temer o Sol e vieram para as ruas desfilar, vaidosas e temerárias.
Já a percentagem de suicídios e mortes por afogamento quadruplicou. Uns, sucumbiam à podridão do seu Lixo, outros, inconformados, entravam incessantemente no oceano para se lavarem. O Lixo boiava enquanto nadavam, fazendo-os sentirem-se mais puros, mas depois prendia-se aos corpos e arrastava-se pela areia quando regressavam a Terra.
Quando todas as crianças que entravam na puberdade, morreram, os governos de todo o mundo proibiram a prática de banhos, a fim de a raça humana adquirir imunidade ao seu Lixo. No entanto, alguns países, em nome da liberdade, decretaram que o acto de tomar banho, apesar de “desaconselhado”, era “tolerado”. (Numa clara pretensão de aumentarem as suas receitas turísticas, com a procura desesperada de uma pureza temporária ou ilusória tornada “fruto proibido”.)
Os pais encorajaram os seus filhos mais novos a produzirem o próprio Lixo e a comê-lo, para se tornarem imunes, enquanto os cientistas proclamavam todos os dias, avanços na obtenção de um antídoto extraído de golfinhos, deficientes profundos e recém-nascidos.
Nunca se encontrou uma cura.
Os raríssimos puros que saíam à rua para comer, eram facilmente detectados, graças às Ratazanas e outras criaturas que fugiam deles como de um incêndio. Depois, eram perseguidos e comidos vivos. Apesar de nenhum canibal ter ficado curado, a “caça ao puro” tornou-se obsessiva devido ao sono profundo que a carne das vítimas gerava... Após a digerirem, não conseguiam ver, tocar, ouvir, cheirar ou provar a podridão que transportavam, mas uns dias mais tarde, acabavam por acordar.
Nasceu o rumor de que alguns puros conseguiram fugir, abrigando-se numa ilha idílica algures no oceano Índico, mas a existência de tal lugar nunca foi provada. O que se tornou facto, foi que sete anos mais tarde, quando os últimos velhos porcos morreram, o planeta voltou a ser azul...

Nunca se soube o que aconteceu ao Homem do Lixo. Na verdade, ninguém o queria encontrar.


Filipe Lascasas

Para mim e  para os Homens que fazem a recolha do Lixo.


E is for Estranged - Owen Pallet

Começar de novo




Peguei-lhes fogo e sentei-me. Esperei um último suspiro de calor, desta vez reservado ao corpo.
Crepitaram, enrugaram-se mas não arderam. 
Escrevi mais uma para as atear. 

segunda-feira, 8 de março de 2010

Uma porta vermelha, uma porta branca, uma porta verde



Nasci sem irmãos e muito tarde. Pelo menos para conseguir que o meu pai jogasse “à bola” comigo.
Ele foi compensando a nossa gigantesca diferença de idades da melhor forma que sabia... Em vez da história do “Gato das botas” ou da “Branca de neve”, lia-me à noite poemas de António Aleixo e relatos do programa espacial Soviético e Americano.
Aos seis anos, eu não fazia ideia quem eram os sete anões, mas sabia que o “nosso” primeiro satélite se chamava Sputnik e que o primeiro ser vivo no espaço se chamava Laika - uma cadela de rua que durante uns anos foi tratada como uma raínha mas depois morreu da pior forma: na solidão.
O meu pai não jogava à bola comigo mas levava-me a passear no pinhal, ensinava-me a reconhecer o canto dos pássaros, o nome das árvores, as pegadas dos animais.
Um dia deu-me uma prenda – uma fisga. Fez também uma para ele, para atirarmos às pêras e maçãs de propriedades alheias, para podermos gritar qualquer coisa que não “golo”, quando acertávamos em qualquer coisa.
Numa tarde de Agosto, após muitos “golos”, perguntei-lhe:
- O teu pai também te deu uma fisga?
Ele apertou-me a mão como se eu tivesse dezoito anos e contou-me uma história que ainda hoje assombra a minha vida...
- Era uma vez uma menina chamada Rolinda que foi abandonada no altar. Regressou a casa e cuidou da sua filha bébé – a tua tia. Uns anos mais tarde, a tua avó voltou a apaixonar-se mas o meu tio, que sustentava a família, descobriu e garantiu que a irmã não seria mais abandonada (pelo menos num altar)... Expulsou o meu pai com paus, pedras e tudo o que lhe veio a mão. O meu pai partiu e não voltou. Nunca me revelaram se ele sabia que também estava a abandonar a mim. Por isso, não, o meu pai nunca me deu uma fisga.
Cresci com a convicção  que o amor é uma história com muitas versões mas sempre com as mesmas personagens:

O vilão – o tio do meu pai que assustou o meu avô ao ponto de ele nunca ter voltado ou, pelo menos, enviado uma fisga ao meu pai por correio.
O cobarde – o meu avô que não quis ser herói e procurar a sua amada.
A vítima – a Laika ou o meu pai, projectados para o universo em solidão irreversível.

Na altura, fiquei triste e chorei pela Rolinda, quase tanto como pela Laika.
O meu pai olhou para mim em arrependimento e desejou que eu fosse mais velho ou ele mais novo - para ter um amigo forte com quem desabafar ou então, simplesmente limpar a alma jogando “à bola”...  
Bateu-me nas costas, levantou a fisga e acertou com mestria num galho de uvas. Limpou-as com a camisola e deu-mas a provar.

Porta Branca

Doze anos mais tarde vi a Marta, no casamento de um primo. Já tinha ouvido falar dela,  ganhara o titulo de “Miss Concelho da Maia”.
Fiel às minhas convicções (na altura, quase todas incluídas em letras dos Pearl Jam), cataloguei-a: “beleza fácil”, “arrogante”, “ôca”, “destruidora de corações”... Sabia estar preparado para a evitar. Porém, quando a vi, constatei que a beleza dela não era nada fácil... Era hipnotizante.
Mantive-me sentado o tempo todo, tentanto nunca olhar para ela; ainda assim, atento a todos os seus movimentos - para não revelar a minha vulnerabilidade, caso uma ida à casa de banho, por exemplo, nos colocasse frente a frente. 
A cerimónia estava quase a acabar e a minha metodologia quase triunfante, quando a minha mãe estragou tudo:
- Porque não vais dançar com aquela menina? Passou o tempo todo a olhar para ti e há pouco, quando foram todos dançar, quase jurava que olhou para ti em desespero, enquanto a ignoravas.
Nesse instante retribuí-lhe o olhar, mas era demasiado tarde. Ficamos os dois a olhar um para o outro, em desespero. enquanto todos se levantavam e despediam dos noivos. Eu levantei-me também e caminhei para ela; ignorei os noivos, os meus pais, os dela, a música e tudo resto. Toquei-lhe no ombro, olhei para ela e tudo o que consegui dizer foi:
- Até à próxima.
Os dias que se seguiram não foram fáceis... Tive daqueles sonhos que catalogamos como pesadelos, apenas pela raiva de termos acordado. Dançava com ela na maioria deles.
No ínicio de Setembro, enquanto trabalhava na papelaria do meu primo (ainda em lua de mel) e preparava as encomendas dos livros escolares, vi uma lista colada numa caixa que dizia: “Livros da Marta 12ª Ano”.
Sem qualquer dúvida que me estava a ser dada uma segunda oportunidade, abri a capa do livro de Matemática e em forma de prefácio escrevi: “Não imaginas como me arrependo de não termos dançado. Se aceitares o convite para uma valsa (nem que seja a última) estou às quintas à tarde na praia de Leça”.
Fechei o livro e respirei fundo. Nessa noite não tive pesadelos.
Na quinta feira, apesar das reclamações dos meus amigos, não cheguei a entrar na água. Fiquei sentado, à espera, umas vezes a olhar para o mar e a desejar profundamente que me tocassem no ombro, outras a olhar para as dunas, em desespero.
Ela não veio. Quase fiz os meus amigos perderem o autocarro, para ter a garantia que ela não vinha.
Passei duas semanas a insultar-me por ter alimentado a ilusão que poderia ser diferente da Laika ou da Rolinda. Olhava à noite para o céu, à procura do Sputnik, à procura de um outro companheiro solitário com quem desabafar.
No fim de Setembro, numa tarde de ondas perfeitas, com o Sol já a tocar no horizonte, apanhei uma onda e vi na praia três raparigas. Hipnotizado, cai à água da forma mais ridicula possível. Nadei até à costa e caminhei até elas, a cuspir areia e com algas na cara.
A Marta caminhou até mim com um olhar sereno e disse: 
-Vim aqui saber se sempre vais dançar comigo...
Demos as mãos mas não dançámos. Entrámos todos no “88” que nos trazia da praia de Leça para a marginal. Era o autocarro perfeito - semi-articulado, com espaço suficiente para pousarmos as pranchas numa plataforma giratória a meio.
De mãos dadas, rodeados de pranchas e a girar na plataforma, dançámos finalmente a nossa valsa adiada. Alguns passageiros sorriram, os nossos amigos troçaram e nós... Nós girámos, curva após curva, num carrossel que era só nosso.
Faltavam três dias para completar um ano totalmente feliz, quando recebi a notícia, numa cabine telefónica no Mindelo: 
- Vou estudar para Budapeste... Com as minhas notas a matemática... O meu pai tem um amigo na universidade lá...Eu não quero mas o meu pai não recua.... Não te preocupes, vou escrever-te todas as semanas e venho cá de três em três meses.
O meu mundo ruiu.
No primeiro mês recebi cartas todas as semanas, no segundo apenas uma e no terceiro ela não regressou a casa, como prometera.
Algum tempo depois, dei por mim a procurar o Sputnik nos céus, por entre as estrelas... Não sei se zangado por o ter abandonado, ou simplesmente por ter saído de órbita, nunca o cheguei a ver. Se o tivesse visto, contar-lhe-ia que o amor se havia revelado a mim novamente como uma história com muitas versões mas sempre com as mesmas personagens:

O vilão – o pai da Marta, que a fez ir para Budapeste.
As vítimas – eu e ela, impedidos de continuar a viver um conto de fadas 
O cobarde – apenas eu, por a ter deixado partir e não a procurar.

Na altura fiquei ainda mais triste, perante a evidência que os meus genes carregavam a herança de cobardia de um sujeito que nunca havia conhecido.
Abri os armários, parti o mealheiro e comprei um bilhete de avião com dinheiro destinado a uma prancha que não tivesse a ponta emendada com resina.   
Fugi de casa numa madrugada de Setembro. Pedi à Rolinda e à Laika que me abençoassem...
Em Budapeste, persegui uma morada repetida em cinco envelopes e cheguei a uma porta branca. Suspirei e toquei à campaínha... Ninguém apareceu. Sentei-me e adormeci sem dar conta.
Devem ter passado algumas horas porque quando acordei, repentinamente, estava já a escurecer. Levantei-me, olhei para o fundo da rua e vi a Marta, de mãos dadas com um rapaz. Comecei a caminhar em sentido contrário, com a minha alma a discutir com os olhos a razão porque insistiam em a contrariar... Ao chegar à primeira curva ouvi a Marta gritar:
- Filipe?! Espera!
Eu virei-me e apenas consegui dizer:
- Até à próxima.
Continuei a caminhar, com uma força nas pernas que me fez acreditar chegar até casa. Quando finalmente sucumbi ao cansaço, contei os trocos, chamei um táxi e em andamento, já suficientemente longe,  deixei os meus olhos por fim, renderem-se à alma. Uma vez rendidos, não me pouparam o embaraço de uma senhora no Check-in e uma hospedeira, me perguntarem se “estava bem”. Da segunda vez que menti, o homem
que viajava ao meu lado inclinou-se e disse:
- Não me parece que estejas bem...Aposto que estás com uma indisposição daquelas que só o amor consegue causar...
Engoli em seco e disfarcei o meu desespero - ainda não estava preparado para enfrentar o meu pai; dispensava bem esgotar energias com discursos paternalistas...
- É mais ou menos isso, mas passa!
- Eu sei que não acreditas no que dizes mas passa mesmo! Ninguém nos ensina a que portas bater e às vezes levámos com elas na cara... O processo repete-se, até que eventualmente batemos à porta certa e tudo passa... Começamos de novo.
O discurso era indubitávelmente paternalista mas ainda assim, por ausência de um amigo forte com quem falar (incluindo o Sputnik), continuei a conversa... Falei de todos os vilões, vítimas e cobardes que conhecera, falei mim, da Marta, do meu pai, da Laika, da Rolinda, do avô que nunca conhecera...
Quando acabei, os seus olhos continuavam arregalados. Havia-se mantido calmo enquanto eu falara de tudo o resto (acho até que lutou para não adormecer) porém, a história de Rolinda e do meu avô havia-o perturbado.
Ignorou o aviso de apertar os cintos e inundou-me de perguntas:
- Como se chama o teu pai? Em que ano nasceu? Onde morava a tua avó? Como se chamava o tio do teu pai?
Achei aquilo estranho e fui respondendo, com medo de ter estado a desabafar com um psicopata...
No aeroporto ele ofereceu-se para me dar boleia até casa. Neguei a primeira vez mas depois, consciente do “vácuo” nos meus bolsos e confiante na arte que acumulara de “partir o nariz” a quem se metia com a malta do meu bairro, aceitei.


Porta Vermelha

Ainda hoje viajo muito. Vejo mil e uma casas, portas de todas as cores. Sabes que pertences a um sítio quando vês a côr da tua porta – vermelha. Não um vermelho qualquer mas o teu, aquele que foi pintado com a palete da tua alma e onde os pássaros cantam da forma que te ensinaram a reconhecer.
O carro parou e eu sabia que tinha chegado a uma porta onde podia bater. Ele desligou  o motor mas eu não estranhei. Saí do carro e de lágrimas nos olhos e bati à porta.
Podes ver mil e uma casas e portas de todas as côres,  mas irás sempre lembrar aquelas às quais podes bater. No entanto, por muitas portas que abram, a certeza de estar em casa surge apenas com um abraço – o do meu pai.
O meu pai abriu a porta e fez-me sentir em casa.
- Não fiques desiludido comigo! Estava certo que ir atrás dela era bater à porta certa...
Ele agarrou-me nos ombros e de olhos inundados, disse:
- Na vida há poucas certezas. Por isso haveremos sempre de tomar decisões que se revelam certas e outras amargamente erradas... A compensação para a angústia desta realidade reside numa dessas poucas certezas: um pai vai sempre gostar do seu filho, independentemente do que ele decidir.
Eu decidi parar de chorar.
- É a este senhor que devo agradecer ter-te trazido a casa?
- Não! Ele veio para casa pelo seu próprio pé... Peço descupa por incomodar numa altura destas mas tenho que esclarecer umas coisas...
A minha mãe deu-me uma sopa e o meu pai umas uvas - que limpou com a camisola, enquanto respondia às perguntas do homem no avião...
À terceira uva, percebi que o meu pai falava com o seu primo...
O meu avô, desconhendo a história da Laika, contara aos seus sobrinhos a história de um amor perdido, de um vilão que o afastara de um conto de fadas, de um cobarde que todos deviam repudiar...
- O teu pai está vivo! Se quiseres, arranjo forma de se conhecerem... Vais ao café onde ele costuma ir... Não te preocupes, eu falo com ele....

Porta Verde

Numa tarde de Agosto, eu e o meu pai apanhámos o “77”, um autocarro perfeito - conseguíamos sempre lugar e depois, “lá para os lados da Areosa”, com todos os lugares já preenchidos,  uma velhinha entrava e o meu pai dava-lhe lugar.
Saímos em “Montes Burgos”. Caminhámos em silêncio até um café e depois recuperámos o fôlego.
Ele deu dois passos e depois parou...
- Não fiques desiludido comigo... Se calhar não vou conseguir entrar.
- Sabes pai, na vida há poucas certezas... Há decisões que são certas e outras que nos deixam na mer... Tu sabes! Mas um filho vai sempre gostar do seu pai, independentemente do que ele decidir.
O meu pai apertou-me a mão como se eu tivesse seis anos e depois, filho e neto, supiramos em uníssono, enquanto abríamos a porta do café...

O meu avô nunca chegou a dar uma fisga ao meu pai. Deu-lhe no entanto, outras coisas que um miúdo de 55 anos também precisa -  uma porta verde por exemplo, onde ele podia bater sempre que precisasse.

Filipe Lascasas

Para a minha mãe que também lá estava  Foi ela que nos bastidores, nos (re)uniu a todos.


Been so long - Vetiver + Skinny Love - Bon Iver

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Crepúsculo*




Quando era pequeno tinha crises de ansiedade na véspera do meu aniversário. Não era a expectativa das prendas que me fazia sofrer – a pobreza do meu meio nunca me criou tal problema –, era sim a visão de durante umas horas, que pareciam segundos, conseguir ter os seres que mais prezava no mundo, à minha volta. A contemplação dos seus olhares e expressões, celebrando a minha existência.

Depois cresci. Alguns cresceram comigo e outros envelheceram. Por estas e outras razões, a celebração da minha existência deu lugar a esporádicas confirmações da minha sobrevivência... “O que é feito de ti?” “Estás a safar-te?” “Corre tudo bem?” “Quando é que vens a casa?”
Soube que havia parado de crescer e passado a envelhecer quando à vez, de forma aleatória, alguns dos seres - outrora habituais - deixaram de vir...
Quando a meio de uma celebração reparamos que não conseguimos antecipar a maioria dos olhares e expressões que nos rodeiam,  sabemos que mais tarde ou mais cedo, seremos nós os ausentes. Pouco a pouco, deixamos de celebrar e passamos a contabilizar... “Quantos vêm?” “Quantas velas?” “Quanto custa?” ”Demora muito tempo?”

Quando era pequeno tinha crises de ansiedade na véspera do meu aniversário. Por isso, ia para a cama e obrigava-me a dormir. O tempo passa mais depressa quando dormimos; não pelo estado de semiconsciência que “os mais objectivos” evocam mas por causa dos sonhos que não lembramos. São eles que recapitulam os momentos e antecipam as emoções que queremos sentir. Muitas vezes, com sorte, repetem-se.

Ontem adormeci no carro. Era véspera de mais um dia importante na minha vida.

Acordei e já estavam todos presentes, prontos para celebrarem a minha existência. Tinha doze anos quando o mesmo aconteceu. Não ouvi a campainha e quando acordei, já todos haviam chegado. E como é bom acordar sem a ansiedade de que mais um dia passe ou mais alguém chegue. Durante anos, ansiei que tal sonho se repetisse...
Coloquei-me ao centro dos meus seres e antecipei as suas expressões. Depois, com os olhos da alma bem abertos, contemplei-os, iluminados pelo crepúsculo em que as janelas dos meus pais transformavam o sol...
Vi cada um dos meus amigos e praticamente todos os meus amores, recordar-me, num dia em que se celebrou a minha existência. O Pedro e o Luís, que conseguiam sempre no último minuto, arranjar um punhado de papelinhos coloridos para me atirarem à cabeça, lançaram-me um punhado de terra, repetindo a mesma frase de tantos sonhos repetidos: “ Fica bem maior, fica bem”.
Entretanto alguns envelheceram também e ficaram comigo, a contar-me histórias da minha existência. 

Mais tarde voltaria a nascer. 

Filipe Lascasas

*Crepúsculo: do Lat. crepusculu
                         s.m., claridade frouxa que se nota antes do romper e depois do pôr do sol.
                         figurativo: decadência; ocaso; declínio.  




Samskeyti - Sigur Ros

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Pétalas de uma só árvore




(9h 00m 52 segundos): Uma amendoeira em flor deixa cair no chão as primeiras cinco pétalas.
(9h 01m 35 segundos): Luís, presidente de uma grande empresa, olha pela janela do seu gabinete e deixa cair todos os papéis que tem na mão. Não encontra sentido no que o rodeia, nas roupas que traz vestidas, nos objectos que decoram a sua sala do trono. Tira a gravata e sem dizer uma palavra, arranca no seu carro preto sem destino certo.
(9h 02m 36 segundos): Raquel, uma rapariga morena, procura desesperadamente uma faca de cozinha, por entre seringas usadas, limões espremidos e pratas amachucadas. Vai para a sala, atira contas por pagar e uma ordem de despejo para o chão e escreve uma carta em cima de uma pequena mesa cheia de marcas de cigarros. Após o ponto final, arregaça as mangas e a tremer, pousa a lâmina no seu pulso direito.
(9h 03m 12 segundos): Filipe, um menino com oito meses de idade, é abandonado num contentor cheio de trapos velhos.
(9h 04m 26 segundos): Carla, uma médica de urgências, acorda a chorar e decide faltar mais uma vez ao emprego. Caminha até ao quarto azul-céu do filho, com dois caixotes de cartão, para empacotar brinquedos que nunca foram usados. Olha para o seu ventre, deixa cair os caixotes e prostrada num berço, chora compulsivamente.
(9h 05m 06 segundos): Ricardo, em liberdade condicional, entra no seu carro vermelho decorado com fotografias de Carla, uma médica grávida que há oito meses atrás lhe retirou duas balas perto do coração. Vive amargurado, por Carla não reconhecer a sua cara desde que lhe limparam o sangue.
(9h 30m 06 segundos): um violador sai de uma drogaria com um pé-de-cabra e quatro metros de corda. Arranca num carro vermelho a grande velocidade, rumo a casa de uma médica.
(9h 31m 26 segundos): Um trapo enrola-se no pescoço de um bebé que aflito, agita-se e chora.
(9h 32m 40 segundos): Uma brisa forte corre por entre as árvores de um pomar e abraça uma amendoeira, levantando no ar milhares de pétalas.
(9h 33m 12 segundos): Uma rapariga morena fazia nascer do seu pulso duas gotas de sangue quando ouviu o choro de um bebé. Saiu de casa a correr e com uma faca que tinha na mão, cortou um trapo que apertava o pescoço do bebé quase sem ar. Pegou na criança, colocou-a cuidadosamente no banco de trás do seu carro, apertou-a com o cinto de segurança e arrancou rumo à cidade, para lhe buscar fraldas e comida.
(9h 44m 29 segundos): O pára-brisas de um homem vestido com um fato sem gravata, encheu-se de pétalas e ele parou o carro no meio da rua. Ao sair, viu uma chuva de pétalas abater-se sobre um pomar e caminhou para lá. Aproximava-se de uma amendoeira quando ouviu um estrondo, mas continuou a caminhar. Olhou para o céu, abriu os braços e permaneceu inerte, coberto por um manto de pétalas.
(9h 45m 13 segundos): Uma rapariga com um bebé no banco de trás do seu carro deparou-se com um carro preto parado numa curva e para evitar bater-lhe, desviou-se, colidindo com um carro vermelho que vinha em sentido contrário.
(9h 45m 14 segundos): Um homem chocou com outro carro e desmaiou, deixando a cabeça cair sobre a buzina do seu volante.
(9h 45m 15 segundos): Uma médica ouviu uma buzina, abriu a persiana de sua casa e viu dois carros a deitar fumo. Pegou no seu estojo médico e correu para lá.
Abriu a porta de um dos carros e uma rapariga caiu no chão. Impulsivamente mediu-lhe o pulso ensanguentado, mas após reparar no seu estado, percebeu que já nada mais podia fazer por ela. Correu para o carro cuja buzina tocava e viu um homem caído sobre o volante, com quatro metros de corda e um pé-de-cabra pousados no seu regaço. Partiu o vidro da janela e utilizou o pé-de-cabra para abrir a porta que estava encravada. Depois, transportou o homem com a cara tapada de sangue, para o meio da rua; fez-lhe respiração boca-a-boca, massagens cardíacas e conseguiu traze-lo à vida. Quando acabou de ligar para o Hospital ouviu um bebé chorar no primeiro carro. Desapertou-lhe o cinto e pousou-o cuidadosamente em cima da mala de um carro preto, parado no outro lado da rua. Verificou com rigor, se o bebé estava bem...
- “Tens muita sorte em não te teres magoado, meu menino lindo! Estás a precisar que alguém te mude as fraldas...”
Ouvia-se já o som das sirenes quando a médica levou o bebé para um quarto azul-céu de sua casa. Deitou-o num berço vazio e foi buscar fraldas a um caixote de cartão.
(9h 50m 07 segundos): Um agricultor viu no seu pomar um homem de braços abertos e olhos fechados, coberto de pétalas e estático, debaixo da sua única amendoeira...
- O que é que está aqui a fazer?
- Engraçado... Andei todo o dia a fazer-me essa mesma pergunta.

Acabei este relato com um borrão de tinta que me escorreu da caneta inerte. Fechei o bloco cheio de perguntas, paguei o café e meti-me no carro. A caminho de casa fui de repente iluminado por dois ou sete raios de sol que haviam conseguido furar as nuvens cinzentas dessa tarde. Faziam questão de morrer no mar, magnífico e majestoso, como só ele fica quando pensa que o sol, nesse dia, brilha só para ele.
Parei o carro no meio da estrada e caminhei para as ondas iluminadas. Ouvi um estrondo, mas continuei a caminhar...

Filipe Lascasas

Para Salvador Dominguez e para aqueles que carregam as mais árduas missões. 

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

A Vida é Bela!




1- O meu trabalho não é interessante. A minha função é conservar um registo metereológico do tempo passado. Podia aspirar a ser um dos tipos que prevêm o tempo que vai fazer mas, na realidade, nem isso seria suficientemente interessante.
Vinha a pensar nisto quando calquei merda no passeio, a caminho de casa. Soube, nesse instante, que o resto do meu dia estava estragado. Um optimista passou por mim, riu-se e disse-me que aquilo era pronúncio de boa sorte. Apeteceu-me limpar o sapato nas calças dele (e partilhar a minha sorte) mas limitei-me a sorrir de volta.

2- É verdade que não sou um optimista, por isso podes optar por ignorar-me e passar já para o parágrafo nº3 da história. No entanto, se queres mesmo ouvir tudo, sabe que se realmente eu quisesse, podia ser um - gosto de rir, sou suficientemente sonhador, não me deixo abalar com futilidades, tenho criatividade para imaginar cenários alternativos à realidade...
Em vez disso, opto por não ser estúpido. Encaro a vida como ela é – uma merda. É o que ela é por defeito e saber viver não é mais do que a majestosa capacidade em evitar que a vida se apresente a ti na sua forma pura.
Ser optimista é calcar o dejecto de um cão e acreditar ou fazer acreditar (o que é pior, pois aí roças a desonestidade) que os passeios de lisboa estão plantados de flores.
Para onde quer que olhes e vejas vida (e será mais fácil focares-te em criaturas que consideras inferiores por seres optimista) verás que desde a criação ou do “caldo biológico”, nada mais aconteceu senão o puro acto de evitar a merda que nos pode acontecer. Tudo o que recebe “vida” passa o seu tempo de duração a tentar ultrapassar os dejectos nos passeios que é forçado a percorrer. 
Com o espírito sempre aberto a contra-argumentações, vi um filme intitulado: “A Vida é Bela”. Surpreendentemente (para um optimista) o filme acaba com o heroi a levar um balázio na cara e um filho sem pai, simplesmente feliz por andar numa máquina construída para matar outras criaturas. Também poderia falar-te de Romeu e Julieta... Mas é mesmo preciso?

3- Estava a tentar raspar o sapato no passeio quando a raiva, misturada com o resto, fez a sola do meu sapato partir-se em duas. Descalço de um pé e debaixo de um candeeiro - que se tivesse acendido, evitaria o meu azar -, sentei-me.
Para um optimista, esta é a parte da história em que ele proclamará “ficção”, mas a verdade é que mal me sentei, começou a chover torrencialmente. (Confirmar registo metereológico às dezassete horas do dia 9 de Fevereiro de 2010).
A chuva foi de repente interrompida por um guarda-chuva amarelo... Ela debruçou-se e disse:
- Já percebi que estás a ter um dia mau! Estava ali abrigada e assisti à tua “odisseia”...
Sentou-se ao meu lado e pôs o guarda-chuva entre nós...
- Confesso-te que o meu dia também não estava a ser famoso. No entanto, depois de te ver, fiquei contente por pelo menos me ter lembrado de trazer um guarda-chuva. Tive sorte... Raramente ouço as previsões do tempo mas como hoje estava atrasada, deixei o rádio ligado mais tempo.
Tirei a peúga ensopada do pé azarado e espremi-a...
- Estou num dilema... Não sei se deva manter pelo menos um pé calçado ou deixar os dois partilharem o mesmo infortúnio.
- Esquece o infortúnio, hoje é o teu dia de sorte! Comprei uns chinelos nos saldos... Vê se te servem!
- Isto é tão embaraçoso como assustador! A minha mãe aconselhou-me sempre a não aceitar chinelos de estranhas!
- Vês? Ficam-te bem! Mas não te habitues... São só emprestados! Estás pronto para o caminho?
- Até tenho medo de tentar... Se conseguires tirar-me daqui no meio desta escuridão, sem pisar novamente “uma flor”, pago-te o jantar.
- Temos negócio! Nasci com o dom de ser um GPS de cocó. Dá-me a tua mão e sobreviverás!
Eu sobrevivi. Jantámos no primeiro restaurante que me deixou entrar de chinelos e depois ela trouxe-me de volta a casa, são e salvo.
Andei toda a semana a desejar que chovesse e a desviar o olhar do chão. No fim de semana seguinte, ganhei coragem e fui a casa dela devolver-lhe os chinelos...

Temos andado de mãos dadas, a evitar merda, desde então.

4- Sei que posso parecer-te pessimista. Porém, se fosse o caso, não te aconselharia a desenvolver a magestosa capacidade de evitar os dejectos que a vida põe no teu  passeio. Não te  aconselharia a sorrir, quando sabes que podes (por exemplo) limpar o sapato no tapete que um optimista deixou à porta de sua casa.
Haverá alturas em não há tapetes, ou simplesmente puseste o teu a lavar porque outros se limparam nele. Haverá alturas em que os dejectos são atirados à tua cara, depois de percorreres de forma brilhante (e majestosa) o teu passeio habitual. Mas não sejas pessimista, a vida é mesmo assim, uma merda.
Limpa-te e continua a andar porque apesar de a vida não ser bela, isto de andar de mãos dadas a evitar merda nos passeios, tem o seu encanto. 

Filipe Lascasas

(Um agradecimento a RT pela inspiração e amizade)