domingo, 28 de fevereiro de 2010

Crepúsculo*




Quando era pequeno tinha crises de ansiedade na véspera do meu aniversário. Não era a expectativa das prendas que me fazia sofrer – a pobreza do meu meio nunca me criou tal problema –, era sim a visão de durante umas horas, que pareciam segundos, conseguir ter os seres que mais prezava no mundo, à minha volta. A contemplação dos seus olhares e expressões, celebrando a minha existência.

Depois cresci. Alguns cresceram comigo e outros envelheceram. Por estas e outras razões, a celebração da minha existência deu lugar a esporádicas confirmações da minha sobrevivência... “O que é feito de ti?” “Estás a safar-te?” “Corre tudo bem?” “Quando é que vens a casa?”
Soube que havia parado de crescer e passado a envelhecer quando à vez, de forma aleatória, alguns dos seres - outrora habituais - deixaram de vir...
Quando a meio de uma celebração reparamos que não conseguimos antecipar a maioria dos olhares e expressões que nos rodeiam,  sabemos que mais tarde ou mais cedo, seremos nós os ausentes. Pouco a pouco, deixamos de celebrar e passamos a contabilizar... “Quantos vêm?” “Quantas velas?” “Quanto custa?” ”Demora muito tempo?”

Quando era pequeno tinha crises de ansiedade na véspera do meu aniversário. Por isso, ia para a cama e obrigava-me a dormir. O tempo passa mais depressa quando dormimos; não pelo estado de semiconsciência que “os mais objectivos” evocam mas por causa dos sonhos que não lembramos. São eles que recapitulam os momentos e antecipam as emoções que queremos sentir. Muitas vezes, com sorte, repetem-se.

Ontem adormeci no carro. Era véspera de mais um dia importante na minha vida.

Acordei e já estavam todos presentes, prontos para celebrarem a minha existência. Tinha doze anos quando o mesmo aconteceu. Não ouvi a campainha e quando acordei, já todos haviam chegado. E como é bom acordar sem a ansiedade de que mais um dia passe ou mais alguém chegue. Durante anos, ansiei que tal sonho se repetisse...
Coloquei-me ao centro dos meus seres e antecipei as suas expressões. Depois, com os olhos da alma bem abertos, contemplei-os, iluminados pelo crepúsculo em que as janelas dos meus pais transformavam o sol...
Vi cada um dos meus amigos e praticamente todos os meus amores, recordar-me, num dia em que se celebrou a minha existência. O Pedro e o Luís, que conseguiam sempre no último minuto, arranjar um punhado de papelinhos coloridos para me atirarem à cabeça, lançaram-me um punhado de terra, repetindo a mesma frase de tantos sonhos repetidos: “ Fica bem maior, fica bem”.
Entretanto alguns envelheceram também e ficaram comigo, a contar-me histórias da minha existência. 

Mais tarde voltaria a nascer. 

Filipe Lascasas

*Crepúsculo: do Lat. crepusculu
                         s.m., claridade frouxa que se nota antes do romper e depois do pôr do sol.
                         figurativo: decadência; ocaso; declínio.  




Samskeyti - Sigur Ros

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Pétalas de uma só árvore




(9h 00m 52 segundos): Uma amendoeira em flor deixa cair no chão as primeiras cinco pétalas.
(9h 01m 35 segundos): Luís, presidente de uma grande empresa, olha pela janela do seu gabinete e deixa cair todos os papéis que tem na mão. Não encontra sentido no que o rodeia, nas roupas que traz vestidas, nos objectos que decoram a sua sala do trono. Tira a gravata e sem dizer uma palavra, arranca no seu carro preto sem destino certo.
(9h 02m 36 segundos): Raquel, uma rapariga morena, procura desesperadamente uma faca de cozinha, por entre seringas usadas, limões espremidos e pratas amachucadas. Vai para a sala, atira contas por pagar e uma ordem de despejo para o chão e escreve uma carta em cima de uma pequena mesa cheia de marcas de cigarros. Após o ponto final, arregaça as mangas e a tremer, pousa a lâmina no seu pulso direito.
(9h 03m 12 segundos): Filipe, um menino com oito meses de idade, é abandonado num contentor cheio de trapos velhos.
(9h 04m 26 segundos): Carla, uma médica de urgências, acorda a chorar e decide faltar mais uma vez ao emprego. Caminha até ao quarto azul-céu do filho, com dois caixotes de cartão, para empacotar brinquedos que nunca foram usados. Olha para o seu ventre, deixa cair os caixotes e prostrada num berço, chora compulsivamente.
(9h 05m 06 segundos): Ricardo, em liberdade condicional, entra no seu carro vermelho decorado com fotografias de Carla, uma médica grávida que há oito meses atrás lhe retirou duas balas perto do coração. Vive amargurado, por Carla não reconhecer a sua cara desde que lhe limparam o sangue.
(9h 30m 06 segundos): um violador sai de uma drogaria com um pé-de-cabra e quatro metros de corda. Arranca num carro vermelho a grande velocidade, rumo a casa de uma médica.
(9h 31m 26 segundos): Um trapo enrola-se no pescoço de um bebé que aflito, agita-se e chora.
(9h 32m 40 segundos): Uma brisa forte corre por entre as árvores de um pomar e abraça uma amendoeira, levantando no ar milhares de pétalas.
(9h 33m 12 segundos): Uma rapariga morena fazia nascer do seu pulso duas gotas de sangue quando ouviu o choro de um bebé. Saiu de casa a correr e com uma faca que tinha na mão, cortou um trapo que apertava o pescoço do bebé quase sem ar. Pegou na criança, colocou-a cuidadosamente no banco de trás do seu carro, apertou-a com o cinto de segurança e arrancou rumo à cidade, para lhe buscar fraldas e comida.
(9h 44m 29 segundos): O pára-brisas de um homem vestido com um fato sem gravata, encheu-se de pétalas e ele parou o carro no meio da rua. Ao sair, viu uma chuva de pétalas abater-se sobre um pomar e caminhou para lá. Aproximava-se de uma amendoeira quando ouviu um estrondo, mas continuou a caminhar. Olhou para o céu, abriu os braços e permaneceu inerte, coberto por um manto de pétalas.
(9h 45m 13 segundos): Uma rapariga com um bebé no banco de trás do seu carro deparou-se com um carro preto parado numa curva e para evitar bater-lhe, desviou-se, colidindo com um carro vermelho que vinha em sentido contrário.
(9h 45m 14 segundos): Um homem chocou com outro carro e desmaiou, deixando a cabeça cair sobre a buzina do seu volante.
(9h 45m 15 segundos): Uma médica ouviu uma buzina, abriu a persiana de sua casa e viu dois carros a deitar fumo. Pegou no seu estojo médico e correu para lá.
Abriu a porta de um dos carros e uma rapariga caiu no chão. Impulsivamente mediu-lhe o pulso ensanguentado, mas após reparar no seu estado, percebeu que já nada mais podia fazer por ela. Correu para o carro cuja buzina tocava e viu um homem caído sobre o volante, com quatro metros de corda e um pé-de-cabra pousados no seu regaço. Partiu o vidro da janela e utilizou o pé-de-cabra para abrir a porta que estava encravada. Depois, transportou o homem com a cara tapada de sangue, para o meio da rua; fez-lhe respiração boca-a-boca, massagens cardíacas e conseguiu traze-lo à vida. Quando acabou de ligar para o Hospital ouviu um bebé chorar no primeiro carro. Desapertou-lhe o cinto e pousou-o cuidadosamente em cima da mala de um carro preto, parado no outro lado da rua. Verificou com rigor, se o bebé estava bem...
- “Tens muita sorte em não te teres magoado, meu menino lindo! Estás a precisar que alguém te mude as fraldas...”
Ouvia-se já o som das sirenes quando a médica levou o bebé para um quarto azul-céu de sua casa. Deitou-o num berço vazio e foi buscar fraldas a um caixote de cartão.
(9h 50m 07 segundos): Um agricultor viu no seu pomar um homem de braços abertos e olhos fechados, coberto de pétalas e estático, debaixo da sua única amendoeira...
- O que é que está aqui a fazer?
- Engraçado... Andei todo o dia a fazer-me essa mesma pergunta.

Acabei este relato com um borrão de tinta que me escorreu da caneta inerte. Fechei o bloco cheio de perguntas, paguei o café e meti-me no carro. A caminho de casa fui de repente iluminado por dois ou sete raios de sol que haviam conseguido furar as nuvens cinzentas dessa tarde. Faziam questão de morrer no mar, magnífico e majestoso, como só ele fica quando pensa que o sol, nesse dia, brilha só para ele.
Parei o carro no meio da estrada e caminhei para as ondas iluminadas. Ouvi um estrondo, mas continuei a caminhar...

Filipe Lascasas

Para Salvador Dominguez e para aqueles que carregam as mais árduas missões. 

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

A Vida é Bela!




1- O meu trabalho não é interessante. A minha função é conservar um registo metereológico do tempo passado. Podia aspirar a ser um dos tipos que prevêm o tempo que vai fazer mas, na realidade, nem isso seria suficientemente interessante.
Vinha a pensar nisto quando calquei merda no passeio, a caminho de casa. Soube, nesse instante, que o resto do meu dia estava estragado. Um optimista passou por mim, riu-se e disse-me que aquilo era pronúncio de boa sorte. Apeteceu-me limpar o sapato nas calças dele (e partilhar a minha sorte) mas limitei-me a sorrir de volta.

2- É verdade que não sou um optimista, por isso podes optar por ignorar-me e passar já para o parágrafo nº3 da história. No entanto, se queres mesmo ouvir tudo, sabe que se realmente eu quisesse, podia ser um - gosto de rir, sou suficientemente sonhador, não me deixo abalar com futilidades, tenho criatividade para imaginar cenários alternativos à realidade...
Em vez disso, opto por não ser estúpido. Encaro a vida como ela é – uma merda. É o que ela é por defeito e saber viver não é mais do que a majestosa capacidade em evitar que a vida se apresente a ti na sua forma pura.
Ser optimista é calcar o dejecto de um cão e acreditar ou fazer acreditar (o que é pior, pois aí roças a desonestidade) que os passeios de lisboa estão plantados de flores.
Para onde quer que olhes e vejas vida (e será mais fácil focares-te em criaturas que consideras inferiores por seres optimista) verás que desde a criação ou do “caldo biológico”, nada mais aconteceu senão o puro acto de evitar a merda que nos pode acontecer. Tudo o que recebe “vida” passa o seu tempo de duração a tentar ultrapassar os dejectos nos passeios que é forçado a percorrer. 
Com o espírito sempre aberto a contra-argumentações, vi um filme intitulado: “A Vida é Bela”. Surpreendentemente (para um optimista) o filme acaba com o heroi a levar um balázio na cara e um filho sem pai, simplesmente feliz por andar numa máquina construída para matar outras criaturas. Também poderia falar-te de Romeu e Julieta... Mas é mesmo preciso?

3- Estava a tentar raspar o sapato no passeio quando a raiva, misturada com o resto, fez a sola do meu sapato partir-se em duas. Descalço de um pé e debaixo de um candeeiro - que se tivesse acendido, evitaria o meu azar -, sentei-me.
Para um optimista, esta é a parte da história em que ele proclamará “ficção”, mas a verdade é que mal me sentei, começou a chover torrencialmente. (Confirmar registo metereológico às dezassete horas do dia 9 de Fevereiro de 2010).
A chuva foi de repente interrompida por um guarda-chuva amarelo... Ela debruçou-se e disse:
- Já percebi que estás a ter um dia mau! Estava ali abrigada e assisti à tua “odisseia”...
Sentou-se ao meu lado e pôs o guarda-chuva entre nós...
- Confesso-te que o meu dia também não estava a ser famoso. No entanto, depois de te ver, fiquei contente por pelo menos me ter lembrado de trazer um guarda-chuva. Tive sorte... Raramente ouço as previsões do tempo mas como hoje estava atrasada, deixei o rádio ligado mais tempo.
Tirei a peúga ensopada do pé azarado e espremi-a...
- Estou num dilema... Não sei se deva manter pelo menos um pé calçado ou deixar os dois partilharem o mesmo infortúnio.
- Esquece o infortúnio, hoje é o teu dia de sorte! Comprei uns chinelos nos saldos... Vê se te servem!
- Isto é tão embaraçoso como assustador! A minha mãe aconselhou-me sempre a não aceitar chinelos de estranhas!
- Vês? Ficam-te bem! Mas não te habitues... São só emprestados! Estás pronto para o caminho?
- Até tenho medo de tentar... Se conseguires tirar-me daqui no meio desta escuridão, sem pisar novamente “uma flor”, pago-te o jantar.
- Temos negócio! Nasci com o dom de ser um GPS de cocó. Dá-me a tua mão e sobreviverás!
Eu sobrevivi. Jantámos no primeiro restaurante que me deixou entrar de chinelos e depois ela trouxe-me de volta a casa, são e salvo.
Andei toda a semana a desejar que chovesse e a desviar o olhar do chão. No fim de semana seguinte, ganhei coragem e fui a casa dela devolver-lhe os chinelos...

Temos andado de mãos dadas, a evitar merda, desde então.

4- Sei que posso parecer-te pessimista. Porém, se fosse o caso, não te aconselharia a desenvolver a magestosa capacidade de evitar os dejectos que a vida põe no teu  passeio. Não te  aconselharia a sorrir, quando sabes que podes (por exemplo) limpar o sapato no tapete que um optimista deixou à porta de sua casa.
Haverá alturas em não há tapetes, ou simplesmente puseste o teu a lavar porque outros se limparam nele. Haverá alturas em que os dejectos são atirados à tua cara, depois de percorreres de forma brilhante (e majestosa) o teu passeio habitual. Mas não sejas pessimista, a vida é mesmo assim, uma merda.
Limpa-te e continua a andar porque apesar de a vida não ser bela, isto de andar de mãos dadas a evitar merda nos passeios, tem o seu encanto. 

Filipe Lascasas

(Um agradecimento a RT pela inspiração e amizade)

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Amar não é a palavra certa?

“Amou alguma vez as mulheres? Amar não é a palavra certa, porque nela muito se contradiz a uma velocidade que impede o sentimento.”


Agustina Bessa-Luís

Errata:


Amar é a palavra certa, apenas quando dita e vivida com a maior velocidade possível.
O amor é uma borboleta. É a totalidade de raios de sol num dia de céu nublado, com as mesmas interrupções e a mesma escuridão. È uma garrafa cheia que parte, não um conta-gotas. É pura ressurreição seguida de morte súbita. Um fénix que não precisa de levantar voo para chegar ao sol. Um círculo que em cada início parece uma recta.
O amor dura o tempo exacto da contemplação de uma estrela cadente; é decadente.  
O amor intemporal existe: é aquele que foi interrompido precocemente por alguma razão. Romeu e Julieta amaram-se para sempre pois morreram novos, antes da menopausa, do comodismo, do desencanto, das discussões, do cansaço, do divórcio.
Amar tem tudo a haver com velocidade e intensidade. É directamente proporcional. Se quiseres amar alguém para sempre, despede-te após o primeiro encontro. Casa-te com a memória.

Filipe Lascasas


domingo, 24 de janeiro de 2010

O inviolável e entrelaçado sentido de quem somos.






Há palavras distintas que a vida nos entrelaça como sendo uma, com um só significado.
Medo, Ansiedade, Amor e Procura. São quatro de algumas palavras que a vida me entrelaçou...

Bebia quando estava deprimido. Bebia o suficiente até achar que seria capaz de terminar com a minha vida e depois bebia o resto quando não tinha coragem para o fazer.
Numa das noites em que bebia o resto, quis aliviar a bexiga numa esquina e ouvi gritos sufocados. Cambaleei até à origem do som e de repente, um homem alto enconstava-me à parede com uma faca no pescoço. Um outro, cuja altura não sei precisar por estar de joelhos, abafava uma rapariga e rasgava-lhe o vestido, dizendo-lhe coisas horriveis sobre vingança e a culpa que carregava por ser filha de quem provavelmente não queria ser.

O álcool não é o demónio que muitos fazem crer, é sim uma das chaves que abre o portão aos demónios do choro e do riso que todos albergamos, num lexico de sentimentos que a vida entrelaça à nossa volta.

Naquela noite, o meu portão, já aberto, deixou que as lágrimas de uma desconhecida soltassem demónios de raiva e ódio numa esquina pouco iluminada de lisboa...  Com a rapidez  e força de um anjo do mal, segurei a mao do homem em pé e empurrei-lhe a faca pelo peito até ela não entrar mais. Depois, devagar, caminhei até ao homem de joelhos e fiz-lhe o mesmo. Os seus olhos olharam em minha volta, aterrorizados pela visão dos demónios mais horríveis do planeta e eu, assustado também, disse-lhe que aproveitasse estar de joelhos para pedir perdão e para nunca ter de os ver novamente.
Peguei nela e levei-a para o hotel.
Não só não entendia a sua língua como até hoje desconheço a sua nacionalidade. A verdade é que não falámos durante o caminho e ela, por alguma razão, não questionou para onde a levava. Peguei numa toalha que tencionava roubar do hotel, molhei-a em água morna e devagar limpei-lhe o sangue da cara e dos ombros. Puxei-lhe os cobertores e apaguei as luzes; ela acendeu-as e adormeceu.
Quando acordei de manhã ela estava enroscada ao meu lado na alcatifa, com um bilhete na mão onde se lia um número de telefone e uma morada. Dei-lhe o meu telemovel e ela caminhou até à casa de banho.

- My english not very good...Telephoned my parents, it was twelve minutes... I don’t know  what they’ll charge... Promise i’ll pay you.
- No charges... No charges for a daughter calling her parents.

Levei-a até à morada no papel; não tinha dinheiro para um táxi mas ela pegou no meu pulso e com um gesto delicado usou os ponteiros do meu relógio para me dizer que tinhamos tempo. Durante o caminho ela chorava e eu percebia, porque o choro fala em todos os idiomas. Eu segurava-lhe a mão e fazia truques de magia com moedas de 1 euro - perfeitas para enganar um empregado de bar, convencendo-o de que se as moedas estavam  na nossa mão para pagar e já não estão, é porque ele as deixou cair.
Quando chegamos, os ponteiros no meu relógio demorariam mais uma hora até se alinharem com as horas do seu gesto. Meti discretamente a mão ao bolso e senti o que pareciam ser quatro moedas de  1 euro... Levei-a a tomar o pequeno-almoço.
Durante um galão frio encostei a minha cabeça à parede e ela, percebendo o idioma do choro da alma deslizou um guardanapo até mim... Era um desenho de mim e ela de mãos dadas em frente ao sol. O desenho era perfeito não só porque ela desenhava melhor do que um espelho mas porque na realidade, estava a chover. Depois pegou noutro guardanapo, pôs-se de costas e disse:
- I also know magic...
Quando se virou, havia desenhado o meu retrato, sem olhar para mim uma única vez.
Gostava muito de saber falar a sua língua para não desperdiçar a piada de que ela era uma máquina fotográfica humana mas em vez disso, peguei no isqueiro e queimei o guardanapo do meu retrato. Pousei a mão direita na sua face e com o melhor inglês que sabia, disse-lhe que haverá sempre coisas que nos destroem,  roubam e violam. No entanto, o entrelaçado de experiências, recordações, sentimentos, pessoas e palavras que realmente nos define permanece intacto.

Para o bem ou para o mal, aquilo que somos é inviolável, não se encontra tapado por um vestido nem é vulnerável a uma faca;  não se define com uma carreira, dinheiro, fama ou sucesso. Desenha-se sem olhar.

Sem recurso a idiomas,  beijou-me. Só parou quando a buzina de um mercedes preto e sombrio, tocou. Ela entrou e foi-se embora.
Medo, Amor, Ansiedade, Procura. Ainda hoje vivo com o medo de me baterem à porta pedindo justificações pelos homens cujas vidas os meus demónios roubaram. A ansiedade de que a publicação desta história tenha como única recompensa a visita supervisionada do maior amor que vivi.
Nunca desisti de a procurar. Um dia, passeava num jardim em Lille e vi uma rapariga com um vestido branco, a desenhar. Toquei-lhe no ombro e disse olá...

Não era ela.

Filipe Lascasas 

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

O elefante abandonado e o coelho confundido com um leão




Oceano Atlântico, 12 de Setembro de 2009

Contou-me que antes do naufrágio era alguém importante. Navegava no maior navio do mundo quando o oceano, de novo cansado com a arrogância de pequenos seres sem barbatanas, os decidiu afundar.
A minha presença era para ele um privilégio. Quando se está só, numa ilha apenas povoada por outras espécies, qualquer semelhante é bem vindo. Abalam-se preconceitos de côr, credo ou feitio. Apenas porque tudo se torna linear: a raça é a humana, o credo é o da sobrevivência e as vontades são comuns.

No Jardim Zoológico de Budapeste encontrarás um elefante acarinhado pela multidão. É o único elefante presente. Foi recolhido numa savana em Àfrica, onde após ser excluído da manada, esperava conformado, a sua morte.

Estavamos numa ilha banhada pelo atlântico que mais tarde me revelaram chamar-se Lisboa.
No meio da selva, entre presas e predadores, a camuflagem é tudo. Por isso, conservávamos imaculadamente limpos, dois casacos, duas calças, duas camisas, duas gravatas e dois pares de sapatos. Tudo recolhido nas traseiras de uma loja que vestia predadores de consumo - sem tolerância para botões ausentes, linhas soltas ou manchas em couro.
À hora de almoço íamos para a zona de restauração de um centro comercial, perfeitamente camuflados.

Quando um predador caça mais do que realmente precisa para se alimentar, é, meramente, um assassino. Um abutre, perante uma caçada de excessos, deixa de ser um necrófago e torna-se águia real.

Esperávamos que as bestas se alimentassem em frenesim e apoderávamo-nos dos seus tabuleiros abandonados - com a fartura de uma caçada tão vasta quanto desperdiçada. Eramos águias reais, por entre hamburgueres, batatas fritas e bordas de pizza deixadas de parte como ossos indigestos. Nem mesmo quando se comem os ossos se é necrófago, especialmente ossos de farinha e água  - que tantas vezes em vez de pizzas fazem pão.
Ás sete da manhã,  jantávamos – o momento favorito do meu dia. À camuflagem dos fatos, juntávamos duas malas de viagem. A ausencia de uma  roda em cada,  obrigava-nos a transportá-las à mão, mas o nó das nossas gravatas tornáva-nos (entre outras coisas) em dois senhores que preferiam o civismo de transportar o peso dos seus pertences a fazer barulho no chão. Aguardávamos um momento de distração na recepção de cada hotel e fingíamos sair do elevador. Depois seguíamos o cheiro do café, até a uma sala (para nós sempre imponente) onde nos esperava o mais luxuoso dos pequenos almoços. O nosso apetite voraz era castrado pela discrição mas ainda assim, comíamos até não poder mais. Era, porém, uma refeição com regras... Duas, três dentadas no máximo e depois, sorrateiramente, depositávamos a comida na  nossa despensa - que todos veriam como mala de viagem.  
Era o momento favorito do meu dia. Ninguém nos rosnava, os predadores deixávam-nos comer com eles e no fim, ainda nos acenavam, pedindo para voltarmos.

Como em todas as ilhas desertas, há momentos em que a comida escasseia, momentos em que faz frio e nem os predadores ousam sair à rua. Os hoteis esgotam-se, os fatos ficam sujos.


A 3 de Dezembro de 2009 fiquei doente e o meu fato irremediavelmente sujo.
Ele saiu para buscar comida, com o seu fato (ainda limpo) vestido.

Até os leões têm predadores, especialmente quando são encontrados sós.

Ao início da noite, quatro hienas acercaram-se dele e pediram-lhe o seu dinheiro, a sua mala. Encontrei-o numa viela com a sua camisa favorita – só lhe faltava um botão – tingida de sangue...
- Desculpa, acho que não vais conseguir recuperar a camisa.... Eles pensaram que eu era um leão.
Fechou os olhos e deixou cair no chão a sua mala aberta, com croissants e pães de leite sem qualquer dentada.
Dei as dentadas que consegui, vesti o seu fato e caminhei até à porta de um hospital.
Rasgaram-lhe o fato mas ele já me havia salvo a vida.
Um anjo de olhos grandes e azuis acordou-me. Aqueceu com um bafo o estetoscópio antes de mo encostar ao peito, sem perceber que o meu peito havia aquecido no momento em que a vi. Perguntou o meu nome...
- O meu nome é Filipe e naufraguei numa ilha deserta.
- O senhor está num hospital e aparenta ter sofrido um trauma grave que afectou o seu discernimento e memória.
- Talvez a memória, não o discernimento... Neste momento sei que não estou morto e no entanto, estou na presença de um anjo.
Ela corou e deu-me a mão. Não mais a largou.

Filipe Lascasas

sábado, 16 de janeiro de 2010

Génesis




Ao primeiro dia...
A Humanidade recebeu a mais horrível notícia desde a sua criação: o Sol tinha morrido.
Morto e apagado, caía agora desamparado por entre um sistema que outrora fora seu. Como se tal não bastasse, uma estranha e mórbida combinação de posições astrais determinava que o Sol se despenharia no nosso planeta, porventura o único para o qual tinha valido a pena brilhar.

Ao segundo dia...
Os cientistas evocaram a grandiosidade do Homem e calcularam as hipóteses de sobrevivência. Os religiosos evocaram a fé e rezaram pela salvação. O resto do mundo parou e aguardou instruções de ambas as partes.
Quando faltavam trinta minutos para o fim do segundo dia, os cientistas anunciaram que pelas leis da física, iríamos morrer. Os religiosos anunciaram que pelas leis de Deus, a extinção era inevitável.

Ao terceiro dia...
O mundo entrou em depressão. As ruas estavam desertas e as prateleiras de anti-depressivos e bebidas alcoólicas, completamente vazias. Esporadicamente ouvia-se um grito de desespero, uma lamentação, um choro, mas a maior parte do tempo o silêncio era total, quase aterrador. Parecia até que a própria Natureza se tinha apercebido da eminência do seu fim...  As folhas das árvores quase não se mexiam, os pássaros não cantavam e as pessoas que continuaram a trabalhar nos zoo's de todo o mundo juraram que todos os animais se recolheram nas jaulas, recusando sair cá para fora.

Ao quarto dia...
Passava apenas um minuto da meia-noite quando um casal de namorados com setenta e sete anos ousou evadir-se do lar de terceira-idade onde estava aprisionado. O velho debruçou-se sobre a janela de um carro abandonado, no meio da outrora, avenida mais movimentada do Porto. Empurrou para as entranhas do rádio uma cassete que trazia no bolso, aproximou-se da velha e perguntou:
- A menina concede-me uma última dança?
O silêncio abraçou a melodia da valsa que os velhos dançavam e deixou-a atravessar o mundo inteiro (à velocidade do som). Os deprimidos vieram à janela e sorriram. Depois, um a um, desceram às ruas do mundo e dançaram também.

Ao quinto dia...
O Planeta assistiu à maior festa alguma vez celebrada pelos seus habitantes. De todos os continentes surgiam relatos de cães a beijarem gatos, leões a abraçarem zebras. tubarões a dançarem com focas. Em Israel derrubaram o muro das lamentações e no mesmo local construíram um palco a que chamaram "muro das celebrações". Nele tocaram noite e dia, artistas Palestinianos e Israelitas, juntando num só repertório temas hebreus e árabes. Apenas os temas religiosos foram censurados...
Em Cuba dancou-se ao som de Rock n' Roll  e nos Estados Unidos fumaram-se charutos cubanos. Os Brancos honraram os Negros e os Negros perdoaram os Brancos.
Todos os seres que se conseguiam mexer, dançaram. Os restantes cantaram.

Ao sexto dia...
Não há registo de se ter visto, nas ruas e avenidas do mundo inteiro, uma só bandeira de qualquer nação. Contudo, em Amesterdão, um grupo de pintores e poetas pintou nas paredes da cidade uma bandeira com todas as cores conhecidas, a que chamaram: "Bandeira da Humanidade". Nela estava escrita uma frase:
" A nós, Humanos, foi dado um corpo. Nós criámos o Espírito e imortalizámos a Alma. É esse o nosso legado."
As companhias ferroviárias, rodoviárias e de aviação anunciaram em todos os países, viagens gratuitas para qualquer lugar. Sem nunca pararem de dançar, todos os amigos se abraçaram, todos os familiares se juntaram e todos os perdidos se (re)encontraram. Cozinharam-se as melhores iguarias, fizeram-se as melhores sobremesas e decoraram-se as mais belas árvores de Natal.
As operadoras de telecomunicações bateram os recordes de SMS's enviadas num só dia, como é óbvio. No inicio do dia, sete em cada dez mensagens continham a palavra: "desculpa". No fim do sexto dia, nove em cada dez mensagens continham a palavra: "obrigado".

Ao sétimo dia...
Deus, cansado de descansar, pensou em descer à terra para julgar os vivos e os mortos, enquanto havia vivos. No entanto não o fez...
Momentos antes do sol cair, já não havia pecadores e santos, defeitos e virtudes, ódios e amores... Apenas um mundo unido e alegre que se despedia do universo, celebrando em apoteose, a mais agridoce dádiva da Criação: a consciência de existir.

O Universou fechou os olhos e ouviu-se um "Big Bang".

Filipe Lascasas