quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Um bar frente à ria.



“Todos os dias são separadas à nascença, almas criadas de mãos dadas. Poucas enganam o destino da eterna separação... Vagueiam pelo mundo, procurando mesmo sem saber, alguém que nunca viram.”

Filósofo Indiano.

Sexta-feira, 13 de Fevereiro
Saiu cedo do emprego e acelerou para ela, procurando nunca travar. Chovia muito, mas só percebeu isso quando lá chegou e ela não estava. Caiu na única cadeira que encontrou e secou o espírito com a mesma bebida de sempre, invejando o namoro entre o vento e as águas da ria, até as portas se fecharem.

Um dia antes.

Entrou no bar, olhou para todas as mesas e sentou-se ao balcão.
Sabemos que entramos demasiado cedo num café ou num bar quando os empregados nos perguntam “o que queremos” a mastigar o jantar. Ela pediu a mesma bebida de sempre a alguém que mastigava e camuflou a expectativa com um sorriso. Sempre que alguém abria a porta, olhava para trás, mas ele nunca chegou.
Pediu um último copo, olhou para a janela e partilhou a sua solidão com as águas da Ria.

Ele saiu tarde do emprego e caminhou para o bar. Pediu um vinho do Porto e procurou-a. Quando as portas se fecharam, viu no balcão um copo de vinho do Porto quase vazio e percebeu que ela já tinha ido embora. Camuflou a desilusão com um sorriso, olhou para a janela e perguntou à Ria se a tinha visto.

Dois dias antes.
.
Dois amigos convenceram-no a ir beber vinho do Porto a um bar, de costas para a ria. Era o seu dia de folga, por isso jantou cedo e decidiu quebrar a rotina, fazendo pedidos a empregados de bar que ainda mastigavam o jantar. Olhou pela janela de um bar demasiado pequeno e viu uma rapariga sentada ao balcão. Ela olhou para trás quando a porta se abriu e de forma involuntária esboçou-lhe um sorriso pouco camuflado. Ele retribuiu, voluntariamente.
Os amigos estragam certas ocasiões. Naquela, disseram-lhe que ali não tinham lugar e apesar de ele saber que havia encontrado o seu, acabou por beber vinho do Porto solitariamente acompanhado, de frente para a ria. 

Ela pediu mais dois copos de vinho do Porto e continuou a sorrir. Acreditou que ele voltaria…Havia lugar.

Sexta-feira, 13 de Fevereiro.
Sabemos que saímos demasiado tarde de um bar quando os empregados nos perguntam se “queremos mais alguma coisa” a bocejar. Ele pediu um último copo a alguém que bocejava e reencontrou-se com a chuva.

Ela decidiu jantar mais tarde e quebrar a rotina, pedindo um copo de vinho do Porto a alguém que já estivesse a bocejar. Quando a porta do prédio se fechou, percebeu que chovia muito e voltou para trás para pegar num guarda-chuva. Descobriu nessa altura que havia deixado as chaves na fechadura da sua porta e nada mais havia a fazer senão namorar com a chuva.

Pouco depois do dia a seguir.

Já passava da meia-noite quando ele voltou a casa. Tentava limpar em vão a água que lhe escorria da cara quando a viu, em frente à porta do seu prédio...

- Há alguma razão para estares a namorar com a chuva a estas horas?
- Sim... Deixei as chaves lá dentro.
- Por incrível que pareça, eu tenho uma chave que abre essa porta.
- Por incrível que pareça, tinha essa esperança.

Subiram no elevador em silêncio, tentando camuflar sorrisos. Quando o elevador parou, no andar onde ele vivia, ela limpou-lhe a cara com uma das mangas da camisola e ele beijou-a.
Ela não voltou ao seu apartamento, dois andares a cima. Deram as mãos da mesma forma como foram criados e adormeceram ao som do vento que batia na persiana.



Filipe Lascasas


P.S. Nos últimos 14 anos vivi em 11 casas.
Numa delas viveu uma menina chamada “I”. Apesar de não ser necessário nem  sequer conveniente, tornou-se minha irmã. Na altura, escrevia coisas de menina que pareciam de mulher. Hoje, mulher, escreve coisas que parecem (são) de génio.



Mazzy Star – Fade into you

domingo, 1 de agosto de 2010

O diário da minha mãe.



Uma estatística parva afirma que setenta e cinco por cento das pessoas, refere a morte dos seus pais como o pior momento das suas vidas. Há um que pode ser pior e é precedido por uma anunciação que reza mais ou menos assim:

- A tua mãe está a morrer.

 A consciência  de que a morte está a acontecer – sem surpresas – e vais ter de assistir, sabendo-o. Esse é o pior momento da minha vida.
O meu pai teve a bondade de morrer rápido. Típico dele, do sentido prático e pragmatismo ressequido pela idade com que construiu a sua vida. Fez dela uma batalha calculada pela nossa felicidade e até na morte foi concreto.
A minha mãe é a raíz de todas as dúvidas sobre a vida. Nunca me deu respostas, nunca permitiu que a vida se apresentasse a mim de forma simples. Começou por me doar os genes da dúvida e da indagação; completou “o serviço” contrariando o meu pai no objectivo concreto de me tornar um “doutor bem sucedido”... Disse-me:

- Aceita lá esse cargo de director de jornal e continua a escrever.

O que me disseram de forma calculada e concreta foi:

- A sua mãe tem esclerose múltipla.

O que farias? Serias egoísta ou apenas um humano integrado nas estatísticas? Abdicarias de uma carreira com que sempre sonhaste? Farias todos os dias uma viagem de trezentos quilómetros  para mudar uma fralda que – além dos critérios olfactivos – há muito precisava ser mudada? Abandonarias o emprego que punha a comida no teu prato para dar à tua mãe uma papa intragável com medicamentos misturados?
Fiz-lhe as malas e acedi – de forma condescendente – aos pequenos caprichos que ela incluiu. Sentei-a no carro e conduzí-a ao lar de terceira idade “ Prado do Repouso” – o lar com o nome mais concreto e bonito que encontrei. Garanti – financeiramente – que a minha mãe teria toda a atenção “olfactiva” e alimentar necessária. Uma estatística (pouco parva) revela que noventa e nove por cento dos inquiridos, em situação análoga, procede da mesma forma.
Desfizemos as malas  no quarto, com a ajuda de uma enfermeira simpática que depois nos deixou a sós.

- Precisas de mais alguma coisa mãe?
- Chega-me o meu diário.

Na verdade, ela queria dizer “Diários”. Havia um caixote cheio deles. Durante toda a sua vida registara cada acontecimento com uma regularidade mecânica – uma das poucas coisas em que se assemelhava ao meu pai.

- É aquele. Está praticamente novo...

Arrancou do diário umas quantas páginas em branco e passou-mo para as mãos.

- Estas chegam-me para o que preciso de escrever a partir de agora. Leva-o contigo e usa-o. Deixa só umas últimas páginas para o teu filho.
Ela queria óbviamente que eu lesse o que lá tinha escrito. Foi o que fiz.
As primeiras páginas haviam sido escritas aquando o meu nascimento. A caneta foi a única a quem permitiu revelar as suas dúvidas sobre ter um filho...

“Serei egoísta ou apenas humana? O que devo fazer? Abdicar de uma carreira com que sempre sonhei? Acordar todos os dias para mudar fraldas que – além dos critérios olfactivos – há muito deveriam ter sido mudadas? Trocar um emprego por uma papa de bebé que ainda hoje me enjoa? (...)
Hoje meti-o na alcofa, entrei no carro e conduzi até uma agência de amas chamada  “Prado da Vida” – a agência com o nome mais concreto e tranquilizador que encontrei... Não fui capaz. Fiquei com o carro a trabalhar à porta durante uma hora. Olhei para ele e abandonei tudo. Decidi renascer. É isso que ele afinal representa – um renascimento. O mundo para o qual passarei a viver e a falar. Através dele viverei aquilo que não fui capaz de sentir. Através dele verei o mundo de outra forma, e ele irá soprar-me ao ouvido esquerdo, argumentos com a força de tufões - sobre a vida, sobre o mundo, sobre tudo.
Irei contrariá-lo (mesmo concordando com ele) e irei vê-lo passar de menino a homem. Viveremos debates intermináveis sobre a vida, sobre o mundo, sobre tudo – moderados pelo pai que (mesmo concordando com ele), será pai, e o fará calar.
Sempre que te calares, a força dos teus argumentos engolidos irá revolver a tua alma, irá fazer-te querer falar não com outro ou para um grupo, mas para o mundo. No dia seguinte acordarás mais crescido, mais homem passado de menino.

As restantes páginas do diário da minha mãe ficaram por ler. Voltei ao lar, fiquei uma hora a olhar para ela enquanto dormia e para um canto do tecto onde o sol ainda conseguia brilhar. Percebi que não há dívidas entre pais e filhos mas que a minha mãe guardava a hipótese do meu renascimento. Trouxe-a de volta a casa.

A deterioração progressiva da mente da minha mãe não foi mais que uma lenta e guiada viagem ao passado – ao nosso, como mãe e como filho.
Nos primeiros meses retomámos as nossas discussões filosóficas sobre a vida, sobre o mundo, sobre tudo. O meu pai já lá não estava –  mas à mesa. Essa era a única diferença em todos os outros jantares de duas horas ou mais, em que os argumentos da minha mãe sopravam como tufões no meu ouvido direito (que era onde ela se sentava). O meu  pai comia em silêncio, absorvendo o que íamos proclamando, tentando fazer sentido do que não cabia no seu mundo de matemática, contas certas e pragmatismo ressequido pela idade. De vez em quando, levantava o olhar para mim – quando me tornava mais efusivo nas argumentações, quando me precipitava a contrapôr os argumentos da minha mãe ou quando começava a falar antes de ela acabar...
Olhava sempre só para mim, nunca para a minha mãe. Era um moderador silencioso e – para minha raiva – parcial, como se apenas eu pudesse falar de mais, fugir das regras do debate ou exceder o meu “tempo de antena”.
O meu pai comía ao ritmo daquilo que a minha mãe lhe punha no prato. Depois levantava-se para ir buscar uma laranja. Depois analisava – uma última vez – o estado do debate. Olhava para mim mais duas ou três vezes e ía-se deitar.
Quando não era claro se o debate poderia converter-se em discussão, aguardava. Pousava a testa na mão, bocejava, esperava cinco minutos e então interrompia sem autorização:

- Vamos embora que já são horinhas.

Foram poucos os debates que se prolongaram perante a ausência do meu pai. Os que efectivamente prosseguiram, converteram-se em discussões, como se tal estivesse talhado desde o ínicio e o meu pai soubesse, desde o primeiro ou segundo olhar que me lançava. Nessas noites renunciava comer uma laranja. 
Uns meses após a deterioração da mente da minha mãe, retomámos os nossos debates. O meu pai já lá não estava – à mesa – mas persistia, como moderador silencioso, num canto mal estucado do tecto, onde o sol despejava ardilosamente uns últimos raios de luz antes de se pôr. Quando o sol desaparecia os debates continuavam, porque agora o meu pai permanecia por toda a sala, comendo uma laranja infinita, lançando olhares sobre os dois e desempenhando o papel que sempre fora o mais importante para nós: o de espectador.
Quem escreve diários – como a minha mãe – quem escreve, nunca fala sozinho, ou para outro, ou para um grupo – fala para o mundo. Quando o meu pai dizia:

- Vamos embora que são horinhas.

Era o mundo que nos mandava calar, e então quem escreve deve calar-se – quando o mundo nos mostra que não temos mais nada de interessante para dizer.
Os debates continuaram na nossa mesa em “meia lua” que – se quisessemos – abria para uma mesa redonda. O tampo fechado da mesa, do lado da parede, foi sempre para o meu futuro irmão e nunca se abriu. Penso muitas vezes se ele daria lugar a um prato para mais um espectador ou mais um orador. Penso em como eu e a minha mãe sentiríamos o nosso “tempo de antena” reduzir-se progressivamente, ou em quantas laranjas passaríamos a ter de comprar.
A deterioração da mente da minha mãe ditou sequencialmente, nos meses que vivemos, os temas dos nossos debates...
“Deus ou sinfonia do acaso” / “Coincidências ou destino” / “Livre arbítrio ou um árbitro ditador” / “Como um menino e uma menina trazem bebés ao mundo” / “Como e quando as meninas se tornam diferentes dos meninos” / “Como os meninos passam o cinto nas calças” / “De que lado irão estar sempre os botões de uma camisa”.
O meu pai, sempre presente, passou a olhar mais para ela – mais efusiva nas suas intervenções, mais precipitada a contrapôr a forma como eu lhe atava os sapatos, começando a falar antes de eu acabar de lhe dar banho. O meu pai estava lá e trazia-a ao colo comigo quando eu dizia:

- Vamos embora que são horinhas.

Deitava-se ao seu lado e ficava a olhá-la, passando de mulher a criança.

Agora, com a tua avó passada do estado de criança e convertida em pó de estrelas, conduzo por uma estrada estreita sem iluminação artificial, à procura da tua mãe.
Sigo uma placa enferrujada que diz “Sarrazola” e vejo o sol a pôr-se por trás de um campo de milho que quero acreditar não ter fim. Sigo em busca da tua mãe finalmente conformado (ou esclarecido) que nela, procuro também o lugar que a minha ocupava no mundo.
A tua mãe terá nascido entretanto e caminha agora mesmo entre uma multidão. Distingue-se de todos (ou da maioria) por uma fina camada de pó de estrela pousada nos ombros. De vez em quando sacode-se e arrepende-se, temendo ter levantado uma poeira. Mas é pó de estrela e não será nunca uma nuvem – será uma aura. Num desses momentos, irei ver a tua mãe entre a multidão, irei saber que é ela.
Sigo por uma estrada com iluminação natural e vejo um campo de milho que rezo não ter fim - para na parte do mundo que não percorri, haver ainda espaço para uma multidão e para ela.
A tua mãe é diferente da minha. Ainda mais bonita, com olhos de uma cor especial e argumentos só seus. Enquanto esperas nascer, ela irá soprá-los ao meu ouvido, o esquerdo ou o direito, não importa – pois ocupará na nossa mesa o lugar que escolher. A mesa não tem tampos mas estica – se quisermos – com uma tábua a meio.

Nunca escrevi diários até tu nasceres. Escrevi sempre para um mundo anónimo, no qual podia despejar sem controlo e sem remorsos, a arrogância dos meus argumentos.
Comecei a escrever este diário após nasceres, pois quem escreve está sempre a falar para o mundo e tal como o meu pai, tu serás agora o mundo para o qual eu quero falar. Com a tua mãe.


P.S.: Não vou escrever até ao fim. Deixei umas folhas em branco... Para ti.

Filipe Lascasas 


Antony and The Johnsons - "Hope There's Someone" + Sigur Ros - "Samskeyti" (for my mother) + Vanessa Quinones -  "Voices" (for yours)

terça-feira, 13 de julho de 2010

Sete



1 - Levantou-se mais cedo do que ontem. Sentado na cama acendeu um cigarro e viu o fumo e a sua ponta iluminada revelar-lhe que ainda respirava, ainda estava vivo. Foi à casa de banho, bebeu leite com vodka e fechou todas as janelas porque já era dia. Deitou-se novamente e aguardou algumas horas para que o seu maior inimigo (à volta do qual todos se viam obrigados a girar) desaparecesse no mar.
Não mais se moveu, permaneceu inerte, procurando adormecer para não ouvir o barulho ensurdecedor do sangue a correr-lhe nas veias. De todos os órgãos que sabia possuir - dos livros que o obrigaram a ler - o coração era aquele que mais detestava, porque era o que trabalhava mais, antes de todos, sem nunca fazer uma pausa e questionar porque fazia apenas aquilo e não outra coisa qualquer.

2 - Acordou novamente e abriu as janelas, a noite havia nascido e o céu estava coberto... Um lindo dia portanto. Pegou no telefone e encomendou três garrafas de vinho que davam para comprar o automóvel que não tinha. Pousou o telefone e levantou-o novamente para encomendar comida para sete pessoas. Hoje faria outro jantar especial, por isso encomendou comida extravagante... "Quero algo que um mero mortal não possa comer regularmente" (...) "Caro e bom!"

3 - Pôs a mesa só com um prato decorado a ouro e talheres de prata. Abriu todas as caixas de comida e todas as garrafas. Comeu mais do que lhe apetecia e bebeu as garrafas até à última gota.

4 - Dirigiu-se cambaleante, à sua sala de espelhos. Deitou-se no chão e contemplou os seus prémios assim como ele próprio, de todos os ângulos, até o sangue lavar o seu cérebro de uma grande parte do vinho. Adorava-se. Todos se haviam rendido ao seu talento. Não percebia porque insistiam em girar à volta de um outro astro.

5 - Saiu de casa, a pé, em direcção a um bar que frequentava regularmente. Detestava rotinas, por isso sentava-se todos os dias numa mesa diferente, reservada especialmente para o efeito. No meio do fumo provocado pela respiração que teimava em não o abandonar, bebia lentamente um porto mais velho do que ele e olhava discretamente à sua volta. Sentia-se revoltado com os sorrisos dos outros, pela forma despreocupada com que insistiam em viver, sem nunca fazerem uma pausa e questionarem porque faziam aquilo e não outra coisa qualquer. Detestava as suas felicidades ignorantes (porque é um facto que a ignorância anda de mãos dadas com a felicidade). Detestava os que vivem ao sol e giram à volta dele. Invejava-os.

6 - Nessa noite, uma mulher lindíssima, vestida de forma miserável, sentou-se na sua mesa sem permissão...

- Disseram-me que o podia encontrar nesta cidade. Já fui a seis bares e quase desisti, mas finalmente encontrei-o! O meu marido é um grande admirador seu... Está a morrer sabe, de cancro... Já conseguiu viver mais do que os médicos queriam. Sei que aquilo que o faria mais feliz seria ter uma obra sua; abri-la com as suas trémulas mãos e contemplar pela última vez "as pérolas que brotam da sua genialidade quase profética", como ele costuma dizer. Infelizmente com os tratamentos ficamos quase sem dinheiro e não posso comprar nenhuma das suas obras. Venho aqui pedir-lhe se nos pode oferecer uma... Aquela, de Ophelia, no rio...

Ele fixou o olhar puro da mulher e percebeu que ali mesmo se encontrava a oportunidade rara da sua redenção. Naquele preciso momento poderia ser salvo e recuperar o bilhete para o paraíso que há muito havia perdido.
Pousou o copo na mesa, fixou o seu olhar impuro no da mulher e disse-lhe:


- Não!


Levantou-se e foi embora.

1...2...3...4...5...6... pecados mortais que cometia todos os dias. O sétimo acontecia antes de se deitar, quando desengatilhava a sua pistola e decidia viver o dia seguinte. Viver era a sua maior vingança. 

Filipe Lascasas


Philip Glass -  Why Does Someone Have to Die

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Normal





Era uma vez um rapaz. Um rapaz estranho. A sua cabeça crescia muito, mais depressa do que qualquer parte do seu corpo. Tal anomalia teve – como se pode imaginar – graves consequências na sua vida... Começou  por levar-lhe a mãe, no momento do parto, quando a sua cabeça provocou uma grave hemorragia que não pôde ser parada.
Seguiu-se uma infância de consultas médicas semanais, milhares de testes a aparelhos ortopédicos que permitissem suportar o peso da sua cabeça, consultas mensais com psicólogos que lhe explicavam a razão porque as pessoas tendem a fugir horrorizadas de “pessoas especiais”.
Foi convidado a estudar na Universidade de Medicina quando tinha catorze anos. Ao fim de alguns anos, as palavras “aberração” e “monstro” passaram a ser apenas sussuradas; em vez dessas, começou a ouvir (mais alto do que era necessário) palavras como “génio” e “revolucionário”.
Na Universidade, alguns sabiam que havia sido ele a descobrir a cura para o cancro mas o mundo felicitou apenas os seus professores - com cabeças de tamanho “normal” - que anunciaram a cura.
Aos vinte e três anos, quando era já professor, foi-lhe atribuído o prémio Nobel da Medicina e aceitou fazer a sua primeira aparição pública para receber o prémio...
Perante o olhar horrorizado de milhões de espectadores, cortou um silêncio de trinta segundos com as seguintes palavras:

- Apesar da honra, não me sinto feliz nem realizado com nada do que fiz até agora... Na verdade, só encontrarei a felicidade quando descobrir a cura para a minha própria doença: a solidão.

 Retirou-se e passados dezassete segundos, quando já tinha abandonado o palco, o público bateu palmas de pé.
Nos meses que se seguiram deixou de ser visto. Apenas os guardas nocturnos confirmavam que estava vivo e que passava todas as noites no seu laboratório, a trabalhar.
No dia vinte e dois de Agosto, seis dos seus melhores alunos receberam uma carta em casa...

“Preciso de um favor teu e dos teus colegas. Encontra-te comigo à meia noite no laboratório. Vou deixar as portas da Universidade abertas.”

Abriu-lhes a porta com um sorriso:

- Olá meus meninos! Estão preparados para entrar para a história da medicina?

Eles foram-se sentando enquanto ele descrevia aquilo em que havia estado a trabalhar durante nove meses...

- Professor, não queremos duvidar de si... Mas tem a certeza que isso pode ser feito? Podemos ir para a cadeia por uma coisa destas!
- Não têm nada a temer além da glória! Eu assumo total responsabilidade.

Olharam uns para os outros durante uns segundos e depois, quase em simultâneo, levantaram-se para ir buscar as batas e os instrumentos cirúrgicos.
Durante a madrugada de vinte e três de Agosto foi levada a cabo a mais ousada e incrível cirurgia da história da Humanidade. Deitado numa marquesa, o rapaz da cabeça gigante, injectado com mais de uma centena de anestesias locais, deu instrucções aos seus alunos enquanto estes lhe retiravam todas as partes do corpo e as substituíam por outras...

- Gostam dessas pernas novas? São as mais parecidas que encontrei com as do Cristiano Ronaldo! – Gracejava ele para levantar a moral dos seus alunos e os manter acordados.

Quando chegou a hora da parte mais complexa da cirurgia, obrigou cada um a recapitular os  passos que teria de dar – no processo de eliminação de três quartos do seu cérebro. Antes de adormecer com a última anestesia, fitou os seis olhares aterrorizados e em tom sarcástico disse:

- Se acordar e não me lembrar dos vossos nomes, então saberão que a coisa correu mal. Se correr bem, esta será a última vez que irei ver horror nos olhos de alguém...

Passados uns meses, um cientista com aspecto de estrela de cinema, foi despedido da Universidade de Medicina.
Após uma dezena de entrevistas de emprego fracassadas, viajou para as Caraíbas e arranjou trabalho num bar junto à praia.
O seu corpo foi tudo o que precisou de mudar. Apesar de conhecido em todo o mundo, apresentava-se com o seu nome verdadeiro, sem medo que descobrissem quem era na verdade. Sorria cada vez que ouvia alguém perguntar:

Alguém sabe o que é feito daquele gajo com a cabeça gigante?

Fui encontrá-lo sentado numa duna, na praia... Olhava maravilhado para um fenómeno “corriqueiro” de refracção da luz na água. Ao ver-me chegar, perguntou:

- Que estranho e maravilhoso pórtico de cores é este?
- Qual pórtico? O arco-íris?! 
- É assim que se chama? Que linda forma os deuses têm de me mostrar que sou bem-vindo ao seu mundo!

Arranjei espaço entre as raparigas pouco vestidas que dormiam à sua volta e perguntei-lhe:

- Estás bem?
- Claro que sim. Desde que sou “normal”, tenho descoberto coisas incríveis...

Convidei-o a levantar-se e fomos passear junto ao mar. Apesar de ele lembrar o meu nome, a minha família, o seu e nosso passado, foi como caminhar ao lado de um estranho... O nosso fascínio comum pelas obras dos maiores génios artísticos da humanidade, as nossas longas conversas, o cocktail maravilhoso de ciência e filosofia com que vertia os seus argumentos sobre a arte e a vida -  tudo havia ficado algures na sala onde foi operado.

 Voltámos às dunas e despedi-me dele sem que desse conta... Lía com avidez e sofreguidão um livro que tinha pousado na areia. Estava já longe quando o ouvi gritar:

- Já leste este livro? Chama-se “O Segredo”... Tem revelações incríveis que podem mudar a nossa vida!

Já de costas para ele, ri-me do cocktail de ingenuidade e ambição medíocre com que usara a palavra “mudar”... Mais um “normal” na companhia de muitos, acreditando que um dia, poderão ser algo mais.



Filipe Lascasas

Para a Susana e mais um punhado, com cabeças demasiado grandes.




Nine Inch Nails - Dead Souls

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Será possível ser-se mais miserável que os outros? (A. Cossery)



Conheci uma rapariga em Bratislava chamada Rose. Sentou-se ao meu lado numa tasca cheia de soldados reformados do exército vermelho e pediu-me um dos meus cigarros ocidentais. Depois perguntou-me se queria ir com ela para o seu quarto, num bairro ali perto. Estava demasiado embriagado na minha depressão e demasiado inconsciente com vodka para conseguir dizer não. Ao entrar, confiei nas suas taxas de conversão e coloquei os Euros que ela me pediu numa pequena caixa de porcelana com rosas azuis, pousada numa mesa de carvalho cheia de retratos estranhos - onde todos pareciam estar felizes.
Acho que devo ter adormecido por instantes porque quando abri os olhos, ela chamava-me, deitada numa colcha de cornucópias vermelhas, com um lençol que apenas revelava os seus ombros - mais brancos e puros que o próprio lençol.
Sentei-me ao seu lado com cuidado, para não quebrar a porcelana de que era feita. Pedi-lhe que apenas me abraçasse.
Acariciou-me os cabelos, apertou-me nos seus braços frágeis e deixou-me chorar. Chorei durante horas, temendo, a cada soluço, que ela me mandasse embora, que dissesse que o meu tempo tinha acabado... No entanto, os seus braços nunca me largaram, apesar dos Euros que lhe tinha dado não pagarem isso.

- Perdoa-me se te fiz lembrar alguém que amas – disse ela.
- Como posso lembrar-me de alguém que nunca conheci?
- Porque choras então? Não há ninguém para quem possas voltar? Uma casa, amigos, um emprego? Fala-me dos teus sonhos, conta-me memórias felizes da tua infância, da tua vida. Revela-me o que procuras e o que já encontraste.

Abri os meus olhos e eles mostraram-lhe que nada existia atrás deles. Deixaram-na contemplar o vazio que eu transportava.

- O meu corpo é um contentor de vácuo – segredaram-lhe os meus lábios por entre o seu delicado cabelo negro.

Adormeci no seu regaço e sonhei com amigos que nunca tive, com um amor que nunca vivi. Sonhei que o meu corpo transportava algo valioso, algo que todos invejavam. Sonhei ter encontrado um lar, uma cidade, um país onde quisesse ficar mais do que umas semanas.
Acordei com o sol a acariciar-me a cara e o perfume de uma rosa Eslovaca espalhado pela brisa que vinha da cozinha. Deu-me uma chávena de chá, tirou-me uma foto instantânea e colocou-a na mesa da caixa com  rosas azuis. 
Sorri para a fotografia e fingi estar feliz.

                                              

Filipe Lascasas



Virginia Astley - Summer Long Since Passed

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Obrigado Jogador nº47




O Tom Cruise, o Beckam, o Ronaldo, o Eusébio, a Catarina Furtado, os ministros, os deputados, o primeiro ministro, o Presidente da Republica, os Reis de Espanha e uma quantidade de gente realmente importante, fizeram questão de comparecer naquele dia glorioso.
O estádio estava lotado e tudo estava preparado para a despedida do grande Capitão. Era tal o brilhantismo com que conduzia a sua equipa que alguns chamavam-lhe “O Timoneiro”. Ele, com a modéstia que lhe iam permitindo, recusava tal alcunha e fazia questão de vestir uma camisola igual à dos outros, com um número maior que o seu nome.
Foi o primeiro a entrar no relvado, como sempre; não para ser o primeiro a receber aplausos mas porque simplesmente nunca havia conseguido em toda a sua vida, ser pontual - chegava sempre antes da hora. Era comum nunca ouvir aplausos antes de os merecer, por se antecipar ao público.
Naquele dia, porém, já toda a gente lá estava quando ele entrou. O estádio tremeu literalmente com as palmas dos milhares de espectadores presentes. O barulho ensurdecedor da homenagem e da glória durou 26 minutos e 59 segundos, a maior ovação contínua de toda história, com honras de recorde do Guiness.
O capitão chorou - os capitães choram sem medo.
O primeiro-ministro desceu ao relvado e entregou-lhe uma medalha juntamente com um pedido de desculpas pelo governo tardar em reconhecer o seu mérito e contributo para a pátria. Ele disse que não levava a mal, mas é opinião deste comentador que não se sabe até que ponto o medo de ser prejudicado na Segurança Social foi mais importante do que a sinceridade da sua opinião. O capitão era um homem sincero, mas como todos os homens (contribuintes) tinha medo.
Depois, todos os seus colegas de equipa o abraçaram comovidos – os soldados choram por capitães que choram por eles.
Mal o apito soou, ele entregou-se à suas tarefas, com o profissionalismo e a concentração de sempre. Fez o que fazia melhor - jogou, fez jogar, criou oportunidades, moralizou a equipa. É sabido que o seu treinador estrangeiro possuía também um longo e brilhante currículo de troféus, um carisma e uma fama invejáveis. No entanto, o capitão era de tal forma um timoneiro que o treinador pedia-lhe sempre opiniões e conselhos... As “más-linguas” dizem que o treinador deve parte do seu sucesso ao Capitão, mas em nome da verdade jornalística e desportiva, acho que tal não é de todo verdade; por muito que admire o Capitão e por mais dividas que lhe deixem.
Todos no estádio se emocionavam a cada golo... 
“Epá, eu sei que não é suposto gostar de sofrer golos, mas o privilégio de sofrer dois golos do capitão foi uma honra inesquecível.” – Comentou o guarda-redes da equipa adversária à entrada para os balneários.
Ao fim dos 90* minutos todos foram unânimes em reconhecer que o jogo tinha sido memorável e de grande qualidade. O capitão saiu em braços, levado pelos seus colegas e adversários. O Tom Cruise, o Beckam, o Ronaldo, o Eusébio, a Catarina Furtado, os ministros, os deputados, o primeiro ministro, o Presidente da Republica, os Reis de Espanha e algumas pessoas verdadeiramente importantes, fizeram questão de o esperar à entrada do balneário para lhe fazerem uma vénia.
O capitão chorou novamente.
À medida que abandonava o estádio (em transportes públicos) recebeu um aplauso ainda maior que o primeiro. No entanto, os senhores que registam os recordes (e que deviam ter aparecido noutras alturas) haviam já ido embora.

Era assim que devia ter sido, mas não foi.

O meu pai reformou-se após cinquenta e dois anos de trabalho, o triplo da carreira de um jogador de futebol. Como sempre, foi o último a sair do trabalho, por isso não havia ninguém a bater palmas quando finalmente abandonou o relvado.

Filipe Lascasas

*(90 x 0,57777)



Boondock Saints – The Blood of Cuchulainn

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Biografia segundo a minha mãe.

A minha mãe escreve-me cartas e gosta de Yann Tiersen.
Que mais posso dizer?
Talvez deixar aqui a última carta...


a tua biografia