sábado, 22 de janeiro de 2011

Lençóis vermelhos



Limpou a última gota de sangue, pousou-lhe a mão na face e sorriu. Prendeu a ponta das ligaduras com o polegar e enrolou-as à volta dos pulsos, tapando as feridas dos olhos e da alma.

Este não é o fim da história mas também não é o inicio.

Encheu a banheira com água a quarenta graus – a temperatura que dizem ideal para (nestas circunstâncias) confundir o corpo e não deixar que ele incomode a alma.
Pousou a lámina no pulso direito e depois no esquerdo; escorregou para dentro de água e sentiu à sua volta um calor vermelho, que o fazia voltar ao ventre da sua mãe.
Sem realmente adormecer, entrou num sono profundo e quase logo, teve daqueles sonhos que se lembram, quando estamos acordados.
Os pais acordavam-no com um beijo e faziam-lhe uma surpresa no dia de aniversário com um bolo de iogurte. Depois pedalava na bicicleta emprestada pelo Rui, ao pôr-do-sol, num campo de tremoços. Deu dez primeiros beijos em dez amores e despediu-se de todos eles com a certeza de ser recordado. Os amigos ofereciam-lhe uma braçadeira, levantavam-se, batiam-lhe continência e nomeavam-no capitão. Ele levava alguns para a guerra, pedia-lhes que entregassem as suas vidas por ele e ganhava – todos viviam. A irmã partia um dente a fazer cambalhotas, ria, chorava e ria outra vez. Cinco bébes apertavam a mão direita no seu dedo anelar, confirmando que o ouviram e o (re)conheciam na vida e amor dos seus pais. Numa madrugada do dia de Natal estava com o seu irmão na ribeira, no mesmo estado de felicidade. A mesma estrela cadente rasgou o céu e ele pediu o mesmo desejo – aquele que ainda hoje pediria...

- O que foi?
- Uma estrela cadente... Já acabaste o café?
- Pediste um desejo?
- Acho que sim. Não sei se me precipitei mas curiosamente não foi aquele que era suposto...
- Então é porque era esse que tinha de ser pedido.

No fim de vários sonhos sobre tudo aquilo que teve, veio um pesadelo sobre aquilo que desejava ter. Visualizou com detalhe o que lhe faltava e aí abriu os olhos – para  se certificar que a água ficava vermelha, cor-de-sangue. Para ter a certeza que em breve, com pesadelos ou sonhos, a mágoa teria um fim.
A água estava já a vinte graus quando eles entraram – sem pedir licença.
Ela limpou a última gota de sangue, pousou-lhe a mão na face e sorriu um sorriso de aceitação.

- Perdoa-me mas não é assim.

Prendeu a ponta das ligaduras com o polegar e enrolou-as à volta dos pulsos, tapando as feridas dos olhos e da alma. Pegaram-no ao colo e deitaram-no numa cama que fizeram com lençóis vermelhos – cor  de sangue. Ele dormiu sozinho, em lençóis que mereciam (a sua) companhia. Dormiu e sonhou sonhos cor-de-sangue, a salvar anjos de demónios, a viver o amor verdadeiro que dormiria a seu lado em paz, sabendo estar protegida por um capitão. 

Ele apareceu na sala com os golpes cicatrizados e a cama já mudada (por ele). Estava pronto.
Fizeram a viagem em silêncio, propositadamente pelo caminho mais longo, junto ao mar. Ele olhou para as ondas e pediu-lhes força. Depois olhou para o céu e pediu-lhe um pouco de sorte.
Ela pousou-lhe a mão na face e sorriu. Prendeu a ponta das ligaduras com o polegar e enrolou-as à volta dos pulsos, tapando as cicatrizes dos olhos e da alma. Calçou-lhe as luvas, bateu-lhe nos ombros e disse:

- Estás pronto.

Ele percorreu um corredor formado por todos os que o pousaram numa cama de lençóis vermelhos, uns meses antes. Entre rir e chorar, escolheram rir. Lançaram-lhe aplausos e abraços que faziam dele já um herói. O Bruno teve dificuldade em conseguir que a braçadeira passasse pelas luvas mas conseguiu pô-la, um palmo abaixo do ombro.
Olhou para o ringue e depois para eles – de braços abertos a acenarem vitória. Entregou-lhes um sorriso de resignação, perante a eminência de uma morte certa, uma luta de David (sem fisga) contra Golias.

A luta era por amor – em nada diferente das batalhas mais importantes que se travaram no mundo... Mas isso é outra história.

Ele subiu ao ringue, bateu as luvas uma contra a outra e lançou-se à batalha.

Não há nenhum mal em morrer... Isso acontece;  a todos.
 É a forma como se morre que conta. Por isso não deixes alguém morrer por desistir. Liga-lhe os pulsos e faz-lhe a cama com lençóis de coragem e dignidade. Depois deixa-o morrer... Mas a lutar.

Ao primeiro soco caiu. Mas levantou-se. Ao sétimo soco caiu outra vez mas estava a ganhar, já desde o primeiro.

Este não foi o fim da história, foi o ínicio.


Filipe Lascasas



Aos que me fizeram a cama.



Para ouvir com: "Waiting For The End" - Linkin Park 

Obrigado.



Estou de  volta. Fiz algumas viagens e tenho algumas histórias para contar... . Espero que gostem.
Não vi baleias a dançar mas quase... As viagens vão por isso continuar.
(Obrigado por esperarem e pelos e-mails, sms's e bilhetes a pedir histórias.)


Filipe Lascasas

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Devia ser todos os dias...

Mas não é. Por isso - concentrado naquele que efectivamente existe - desejo que este Natal seja para todos os que por aqui passaram, um dia particularmente mais feliz que os anteriores e muito semelhante aos que virão.

Agradeço a 5 pelo postal original e motivador que me enviaram. Em troca, acedo como é óbvio, ao pedido de voltar a publicar aquilo que eles consideram ser a minha única história de Natal.




A Árvore


O Aviso foi lançado em milhares de papelinhos brancos, espalhados por um vento de Dezembro que cumpria a função de uma brisa primaveril. Sobre os casacos e sobretudos nevou o desafio: 


“A maior árvore de Natal do mundo será construída. Decorem-na com dependências, sonhos e frustrações”.


No primeiro dia, a decoração era tão feia quanto óbvia – centenas de maços de tabaco, seringas e caixas de anti depressivos compunham os ramos superiores da árvore. Mas reconheço que a combinação tinha o seu encanto.
Ao terceiro dia, 24 pintores juntaram-se e entregaram os seus pincéis e paletas de cores. A árvore ganhou vida. Exprimia-se por cores, chorava e ria. Os que passavam por ela paravam e questionavam: “O que será que quer dizer?”
Uns dias depois, foi a vez de alguns poetas rasgarem as folhas dos seus cadernos para taparem os ramos despidos da árvore. A árvore começou a falar. Muitos correram para assistir a tal fenómeno, mas a visita durava pouco tempo, perante o som ensurdecedor de tantas palavras. Os que fugiam dela, com as mãos nos ouvidos, gritavam: “Ouvi a árvore falar muitas coisas, mas o que será que ela queria dizer?”
Nos dias que se seguiram, a peregrinação de decoradores foi contínua e os ramos encheram-se. As dependências abanavam ao vento e assobiavam cantos de sereia. Os sonhos acendiam-se e apagavam-se numa intermitência tão acelerada, que quem os via, questionava se os tinha visto mesmo iluminados. As frustrações assumiram a forma de cartas dirigidas a um homem de barbas brancas e vestes vermelhas – inventado por um refrigerante. 
Na semana em que todos os comerciantes sorriem, a árvore estava tão cheia que quase tombava. Milhares de pessoas viviam à sua volta, olhando para ela quase sem se mexerem. No entanto, o olhar contemplativo que a imponência da obra deveria provocar, foi substituído por um outro, vazio e desesperado...
No dia 23, uma leve brisa transformada em vento de Inverno, chocou contra a árvore e um maço de tabaco caiu ao chão. Um homem de trinta anos com aspecto de cinquenta, começou a tremer no meio da multidão e numa convulsão contínua, correu para a árvore. Abriu o maço e a tremer, acendeu um cigarro. Os outros viram o fumo branco (tão poderoso em Roma) e correram para a árvore como se fugissem de um incêndio. Em segundos, criou-se um cenário ainda mais deprimente do que as filas de caixa dos centros comerciais, nascidas na mesma altura... Velhinhas atropeladas, crianças a chorar, mães à procura dos filhos, pais esquecidos de que tinham filhos... Arrancavam decorações da árvore com a força que utilizariam para desmembrar alguém. Amealhavam dependências estranhas, coleccionavam frustrações alheias e pisavam sonhos que outros haviam sonhado.
Apesar do caos, todos abandonaram o lugar com um olhar brilhante e feliz. Muitos ainda falaram em usar a árvore para lenha, mas já não havia tempo, as lojas estavam prestes a fechar.
Às onze horas do dia 24 de Dezembro a árvore estava depenada. Nem uma “pinha” de frustrações; nem um emaranhado de dependências; nem uma fiada de sonhos intermitentes piscava... 

Porém, a estrela permaneceu. Ninguém a retirou. A maioria acredita que foi por estar alta de mais, mas alguns questionam se quem lá a pôs, precisava realmente dela.

Filipe Lascasas

Para ouvir com: "Go Do" - Jónsi

domingo, 19 de dezembro de 2010

O Segredo


...e no postal do 56º aniversário vou escrever-lhes:

"Amor intemporal" é uma espécie de indiferença aos defeitos que carregas... E um pequeno palco -  montado pelos que te amam - onde apenas dançam  as virtudes que te tornam único.   

Saibas escutar, sorrir e agradecer as palmas.

Filipe Lascasas

domingo, 12 de dezembro de 2010

31 dias... anjos e demónios


Não acreditas em anjos. 
Existem  muitas coisas em que não acreditas por falta de procura, por falta de viagens. 
Se não acreditas em ti, poderás até viajar mas nada encontrarás. A não ser, talvez, anjos e demónios.

Fui visitar alguns e (talvez por se aproximar o natal) acederam contar-me histórias - recordações suas. 
Tirei uma foto a um. Não procurava baleias mas sim golfinhos. Ao contrário de mim, sabia o que procurava.

Glasser - Home



terça-feira, 30 de novembro de 2010

19 dias... O Pavilhão Chinês (Lx) é mesmo bonito!



- Não te vejo mochilas em redor mas o teu olhar parece-me de viajante...
- Essa foi a melhor coisa que me disseram num mês! Queres uma sandes?
- Aceito as sandes com a companhia. E então?
- Então?!?
- És um viajante?!
- Sou um viajante-falso... Ando a fazer pequenas viagens, em folgas, à procura de histórias, à procura de balei... de mim.

Se encontrares um viajante-verdadeiro – um que o é depois da idade em que o Cartão Jovem expira, que partilha sandes, crava cigarros e não gasta dinheiro em quartos de hotel – tira-lhe uma foto... Encontraste a mais solitária e egoísta das criaturas.

(Tirei-lhe uma foto).

Um viajante- falso não sabe para onde ir; um verdadeiro, não tem para onde voltar. Não tem amigos, pais, recordações de berço – aquelas que ficam de todas as vezes em que renasceste, numa só vida – esta.

Atestei o carro ontem – à meia-noite – e marquei um compromisso. Deixei-a à espera (ou talvez não) na Estação de Serviço de Oeiras.
À hora combinada, estava bem longe – no Pavilhão Chinês (pela primeira vez) – acompanhado de recordações (pessoas) que serão de berço.

Depois de seres (ou mesmo sempre tendo sido) viajante-falso, marcarás compromissos de viagem que na verdade, só cumpririas antes da data de expiração do Cartão Jovem (a antiga).
Quando se falha um compromisso, o adjectivo “egoísmo” é normalmente um dos adequados. Porém, se és um falso viajante, serás apenas egoísta se privares os que te amam da tua companhia. É para isso/esses que existem as férias.  

Hoje perdi histórias mas ganhei recordações.

Filipe Lascasas


Perdoa-me Anna Reinsoo... Norte é norte (venho de lá).



segunda-feira, 22 de novembro de 2010

11 dias...



Ainda não vi(mos) baleias a dançar. 
O melhor de qualquer viagem é fazerem-se novos amigos...