terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

3 Anjos

Ainda não está acabada...

Mas tinha de a publicar antes das outras. Ainda não vi baleias a dançar mas a lista não acabava aí.



3 Anjos



I - O Caído

Vi-te dois dias antes de ser despedido; caminhavas nas ruas de Lisboa, sozinha, desprotegida. Na impossibilidade de te acompanhar, de te proteger, voei para a metade do planeta onde o sol ainda brilhava e fiz uma visita a todas as flores e borboletas que aí moravam. Quis confirmar que nesse dia, Deus não se esqueceria de proteger algumas das criaturas mais belas e frágeis da sua criação... Soube assim que tinhas chegado sã e salva à tua morada.
Desde então sigo-te para onde quer que vás. Sou aquele que te protege. Fui despedido por um deus que não tinha fé em mim. Sou um anjo caído.
A tua existência levantou-me mas a minha transparência perante o teu olhar, devolveu-me o triste cargo de um anjo da guarda caído. Mas já não sou um anjo, apenas um humano preenchido de tristeza por a sua carne ser invisível à tua alma – que outrora pude ver despida.

Os sonhos são a vida real de um anjo e neles voavas comigo, de mãos dadas. Mas agora acordo antes de ti, aconchego-te e parto para o anonimato. Sou aquele que te protege dos vilões, que te salva dos perigos mundanos, que apanha todas as tuas lágrimas e devolve os teus sorrisos solitários. Sou a brisa que acaricia os teus cabelos, a gota de orvalho que cai nos teus lábios. Sou o sol que te bate na cara numa manhã fria de inverno e a fonte por onde bebes os teus desejos.
Sou (te) invisível. Sou um anjo caído na terra, um humano caído em desgraça.

- Tu és a prova que os anjos existem, és a razão pela qual existo.

Gritarei eternamente estas palavras à tua alma, pois nunca me será permitido sussurrá-las ao teu ouvido.

II - O da Morte

Todos os dias percorria sete quilómetros de mar até chegar a casa. A estrada que o trazia de volta ao lar, namorava com o oceano durante dez minutos – a uma velocidade média de cento e setenta quilómetros por hora. Nunca o vira.
Tinha uma pequena porção do mundo nas suas mãos. Fazia-o rodar, fazia todas as órbitas passarem por ele. No emprego, todos o tratavam como o centro do universo – por uma questão de sobrevivência planetária ou até mesmo lunar.
Hoje acordara determinado – com um telefonema da sua assistente, há já duas horas a trabalhar para o seu sistema solar. Mesmo hoje, não sabia o nome da voz que o acordara.
Levantou-se com o pensamento preenchido pelos planetas que naquele dia iria conquistar. A conquista do universo era sua meta.

As verdadeiras guerras, conquistas e invasões do mundo actual dos Homens, fazem-se por telefone, fax, computador ou qualquer outra coisa com botões. Já não requerem ver a cara do inimigo, nem quando desferem o golpe final. Inimigos, amigos... Todos vos são anónimos.

Ao fim do dia, ganhara mais uma guerra. Havia conseguido mais um planeta e respectivas luas para orbitarem à sua volta. Aceitou as palmas, bebeu o champanhe, fez promessas (aos outros) de mais conquistas.

Uma avaria no carro fê-lo parar a meio do namoro entre a estrada e o oceano. Telefonou para o reboque. Olhou finalmente para o mar e caminhou na sua direcção.
Viu um miúdo no meio da areia branca, a correr de forma desesperada entre a água e a areia...
Parou junto àquilo que parecia ser uma pequena cova feita na areia e esperou que o miúdo regressasse do mar. A presença de um astro gigante – vestido com um fato escuro e uma gravata – não perturbou o sentido de missão do miúdo que o desviou, com cuidado, para poder encher a pequena cova com as mãos cheias de água do mar.

- O que fazes? – Perguntou autoritariamente o conquistador de planetas.
- Estou a guardar toda a água do mar nesta cova. Esta cova é minha! – Disse o miúdo.

O reboque chegou. O miúdo desapareceu no espelho retrovisor de algo há muito tempo avariado.
Rebocado e sem bateria no telefone, viu finalmente o oceano namorar com a estrada e consigo. Chocou-se com o facto de não reconhecer pela janela, como passageiro, o caminho que todos os dias fazia para casa. Deixaram-no em casa.

Na manhã seguinte, acordou e percebeu que estava sozinho. Apenas eu me mantinha ao seu lado, desde o dia anterior – mas ele não me via.
Percebeu que por mais planetas que conquistasse – para orbitarem à sua volta – ele próprio era um planeta desabitado, uma cova vazia.

Chamou um táxi – queria olhar novamente para o mar, tentar encontrar o miúdo e descobrir se ele estava a conseguir guardá-lo na sua cova.
Mandou o táxi parar a meio do caminho quando reconheceu a duna por trás da qual havia encontrado o pequeno ladrão de água do mar. Quando viu a cova vazia, sentiu uma tristeza ainda maior do que a que carregava. O mar ainda ali estava, à sua frente, inconquistável. O miúdo desistira.
O táxi arrancou e deixou-o sozinho, num lugar que não conhecia. Caminhou durante horas, com o sol a bater-lhe na cara e as mãos abertas, a arrastar plantas que por trás das dunas, se esticavam para tentar ver o oceano. Não chegou a lugar algum, mas isso não é importante...

Eu re-apareci entretanto.

- Acho que percebi o querias provar... Não és apenas um miúdo pois não?

Coloquei-lhe a mão no ombro e caminhei a seu lado.

Vencemos as dunas.
Ele abriu os braços e eu as asas (porque já podia).
Olhamos para o céu e enfrentamos o mar.

- Achas que haverá espaço para mim?
- Há lugares maiores que o oceano.. E teu coração não será ignorado.
- Estás aqui para garantir que eu não desisto?
- Sabemos desde o início que não irás desistir. Estou aqui para te fazer companhia... Estás há demasiado tempo sozinho.

No dia seguinte, anunciaram a  morte de um astro. Apenas porque ninguém chegou a tempo de ver a subida da maré apagar lentamente a palavra: “Renasci” – escrita numa areia sem covas.

Muitos ainda hoje não sabem que no universo, a morte de uma estrela dá origem a outras.

- Isso foi ontem. Hoje de manhã, de asas fechadas, esbarrei-me contra ti. Não foi por acaso. Temos de falar...


III - O Nascido.


- Usa roupa, será formal.

Vesti a túnica, abri as asas e desci.

Cheguei mais cedo que os outros mas não a tempo de parar a mão que o noivo – irado – lhe projectou na face. Alguns dos vossos  (Shakespeare e outros a quem chamam apóstolos) escreveram um dia sobre este tipo de ocasiões...

- Espera até eu contar ao teu pai que o neto que lhe carregas vai crescer na companhia de um vagabundo!
- O meu pai é a razão pela qual eu me tornei noiva de um verdadeiro vagabundo.
- Onde pensas que vais? Ninguém ousa virar-me as costas!

Ela virou. Correu pelas ruas do Porto a rir e a chorar. Atravessou a Avenida da Liberdade sem respeitar semáforos e pelo meio do trânsito – porque era livre.
Subiu os Clérigos e entrou na Livraria Lello (onde muitas vezes me encontrei – no topo das escadas – com alguns dos meus irmãos).
Lá dentro, um vagabundo contador de histórias, era centro de um círculo com sete crianças. Ainda não tinha aberto a capa do livro e já as sete pequenas almas ouviam, com sofreguidão, uma história sobre a história a ser contada...
Ela juntou-se ao círculo e ele sorriu um sorriso de confirmação.

Aquele que vocês fazem – segundos antes de alguém desembrulhar uma prenda que irá gostar.

Ele sabia já que ela lá estava; sem olhar. Não é o olhar, é a pessoa . Aquelas encadeantes – que envergonham o sol e iluminam lugares, só porque estão lá. 

- Há lugar para mais dois?

Uma menina de 8 anos levantou-se e tentou arrastar dois bancos mas ele disse-lhe:

- Traz só um, o outro menino já está sentado... Na barriga da mãe. Apresento-vos a Maria.

As crianças riram como crianças e ele começou a história...
As crianças foram embora no fim de uma história que afinal foram três...

Nenhum contador de histórias (aqui ou no céu) pára de as contar quando percebe que alguém sonha – e as crianças sonham. Tanto, que se tornam elas próprias num sonho. Aquele  – a que desejaremos toda  a vida voltar (aqui ou no céu).

- E agora? – Perguntou ele.
- Agora... Acho que devemos fugir. Não tarda ele e o meu pai vão lançar todas as tropas à minha procura.
- Porquê fugir quando devemos procurar? Gostava que o menino crescesse junto ao mar... Vamos procurar a casa ideal para ele crescer.

Subiram para uma mota vermelha e ela apertou-o pela cintura – mantendo o menino bem apertado entre eles. Percorreram a costa sul do Porto e desceram para a de Aveiro.
Pelo caminho, viram sete arco-íris nascerem sem a promessa de chuva. Se realmente choveu, foram pétalas de rosa vermelhas, cor de sangue – cor das que a mãe do vagabundo plantava num quintal sem sol (onde as flores eram regadas com lágrimas mas alimentadas com sorrisos).
Encontraram em “S. Jacinto” – um santo suficientemente anónimo – o cenário ideal para uma história de amor com final feliz.
Foram jantar com amigos e brindaram a finais felizes – porque só (vos) faz sentido brindar a coisas em que é difícil acreditar.

Eu cheguei muito mais cedo que os outros, sem o querer. Estava por isso com medo; estava sozinho mas feliz...
Uma vez (de asas a bater) acompanhei uma criança até lá cima que – inesperadamente – meteu  conversa comigo...

- Olha! As andorinhas estão a voar lá em baixo... Já partiram em busca do sol.
- Estás triste?
- Não. Estou feliz mas com medo; vi sempre as andorinhas voarem por cima de mim, já debaixo de céus cinzentos. Desejei ser uma delas. Hoje sei que nunca o serei e, no entanto, aqui estou, a vê-las voar... Lá em baixo.
- Não deves ansiar a felicidade alheia, apenas te roubará energia... Cada um (caso mereça) tem direito à sua. Em breve, ajudarás todos na procura por uma. Irás ver (e ajudar) o que nunca conseguiste – as andorinhas que se perdem.

Enquanto me perdia nestas recordações o filho dos dois decidiu nascer  (ou foi-lhe dada ordem para o fazer – nunca saberei,  Ele recusa-se sempre a explicar-nos estes pormenores).  
Nenhum hotel tinha vagas para o plafond de crédito que o vagabundo conseguia a contar histórias. Por isso, com Maria em sofrimento, ele rumou para uma luz que lhe pareceu uma estrela próxima – o Farol da Barra. Como não tinha dinheiro para telefonemas, enviou uma SMS ao Luís – o seu melhor amigo, dono de uma vacaria...

Os melhores amigos (aqui e no céu) são apenas aqueles que cultivam uma amizade baseada no nada que lhes dás. Jesus – um de vós – teve amigos, mas não os melhores. Caso os tivesse, teria sido salvo - também miraculosamente – por pessoas que nunca haviam beneficiado dos seus milagres.

A mensagem atravessou os céus:

“Olá Luis. Talvez n t queiras lembrar d mim pq tive ausente em tds as alturas em k precisaste d ajuda.... Cm no nascimento (problemático) d último vitelo. N entnto, desta vez, é o meu filho quem precisa d nascer. Ajuda-m.”

O Luís estava por sorte  (e chamo-lhe “sorte” porque Ele recusa sempre explicar-nos estes pormenores) na IP5, com um  reboque ocupado por duas vacas e uma “caixa aberta” cheia de palha – que o vagabundo ajudou (apenas durante um dia) a preparar.
Escapou a saída de Cacia e rumou ao Farol da Barra. Descarregou a palha à volta de Maria e pôs as vacas a comer. Depois, como em muitas noites passadas a amparar partos de vitelos, amparou Maria e ajudou o menino a nascer.
O Farol da Barra manteve os navios longe do perigo mas nessa noite, anunciou também o nascimento de uma criança.
Empurrámos as vacas (e a palha)  para junto do menino – para tentar mantê-lo quente.
Os outros melhores amigos do vagabundo viram, entretanto, outras SMS’s... Fizeram-se ao caminho, seguindo a Estrela.
Não tinham muito para dar mas deram o melhor que tinham: um envelope com o ordenado do mês, o incenso perfumado da sua companhia e palavras que substituiam Mirra no encorajamento à preservação da vida e incorruptibilidade humanas.

Os que partilham aquilo que têm são nobres soldados da vida. Os que oferecem (na totalidade) o que têm de mais precioso, são verdadeiros Reis – líderes dos líderes.
Os verdadeiros reis (na Terra) são quase todos desconhecidos – nunca terão estátuas em sua honra. Nascem e crescem no campo de batalha. Morrem no anonimato marcados por uma estrela – que no meio de todas as outras, sem que se note – os anuncia. Tarde demais, mas para sempre.
Eles só percebem que foram líderes de líderes cá em cima, enquanto vêem andorinhas à procura do sol.

O menino nasceu. Eu assisti porque cheguei antes dos outros. Apeteceu-me celebrar mesmo sem companhia. Apeteceu-me decorar com estrelas todas as árvores que existiam... (A alegria alimenta ideias parvas).

O Farol mantinha navios longe do perigo mas não o perigo longe deles. Serviu também para guiar um ex-noivo, pai de um filho indesejado, até eles. O vagabundo ouviu gritos de raiva e saiu à Praia. Pediu a Maria que ficasse mas ela, ainda frágil, esperou uns segundos, embrulhou o menino e seguiu-o.

- Onde é que está essa meretriz?
- Peço-te que vás embora.

Ía pôr-lhe a mão no ombro – tentar transmitir-lhe compaixão – mas o homem irado deu-lhe um pontapé no estômago. Perante um grito de Maria, o vagabundo olhou para trás e perdeu a compaixão que sempre carregava. Lançou-se a ele como um camião – movido por  um desespero protector (o mais inconsequente) mas nunca com raiva.
O predador, caído no chão e humilhado, rosnou umas palavras feias. Levantou uma arma da areia e apontou-a à familia.
Ele abraçou a sua amada e com ela, o seu filho, desejando ser um escudo – não impenetrável mas suficientemente forte.

Um clarão iluminou a praia e no segundo seguinte - que duram dez para vós - as suas asas abriram pela primeira vez. Enrolou-as à volta deles e a pena da asa direita – a mais longa – tocou no peito do bebé.
A asa direita sentiu dois projécteis feitos pelo Homem; mas a pena – a mais longa – sentiu o pulsar de um coração pequenino mas forte, igual ao do pai (o verdadeiro). Com a mesma pena, limpou-lhe uma lágrima do rosto, enquanto nos via chegar – por cima do ombro dela e do menino.
Num segundo – dez para vós – mil lágrimas de Maria caíram sobre um corpo que apenas a ela pertencia.

O vagabundo bateu as asas e juntou-se a nós.

 Assim nascem os anjos. Não todos, mas a maioria... Debaixo de lágrimas e envolvidos em amor, Humano – o único. Talvez seja por isso que a palavra “amar” é a mais importante dos vossos dicionários.


IV – O da Morte e o Caído


- (...) foi ontem. Hoje de manhã, de asas fechadas, esbarrei-me contra ti. Não foi por acaso. Temos de falar...
- Quem és tu? – Perguntou ela com uma estranha e incómoda certeza de não estar a falar com alguém mundano.
- Não interessa quem eu sou. Não é comum isto acontecer mas estou aqui para te levar. Estás destinada a partir há já algum tempo mas um de nós tem andado a evitá-lo... É um desertor. Tem andado a proteger-te neste (vosso) mundo.
- É também um anjo? É o meu anjo da guarda?
- Já não é um anjo mas sim, tem andado a guardar-te.

Ele disse-lhe para ligar o carro e ela assim o fez – como se hipnotizada.

- Carrega no acelerador e ignora o próximo semáforo vermelho.

Apesar do medo, sentia-se invadida por uma estranha tranquilidade...

- Não pões o cinto?

Ele riu-se com um ar altivo, pousou a mão no joelho direito dela e fê-la acelerar.
Íam já a 120 quilómetros por hora quando viram um estranho vestido de negro parado no meio da estrada...

- Não pares.

Apesar de hipnotizada, alguns segundos antes (dos vossos), viu o estranho, imóvel como uma estátua, olhar directamente para ela. Levantou apenas a mão direita - ordenando-lhe que parásse.
Ela travou a fundo e o anjo - que de asas fechadas não vence as (vossas) leis da física – foi projectado pelo vidro.
Ao passar pelo desertor, trocaram olhares mas depois o estranho caminhou para ela, ignorando o lugar onde o outro caiu.

- Vem comigo.

Ela deu-lhe a mão. Estava intranquila mas sem medo.

Subiram para uma mota vermelha (italiana) e arrancaram a uma velocidade que desafiava as leis da física.

- Para onde vamos?
- Vamos à procura de um farol. Temos de encontrar uma criança que lá nasceu e te pode proteger.

Pararam numa estação de serviço em Nazaré.

- É aqui que está o menino?

Ele sorriu e disse-lhe já ter havido um “menino de Nazaré” que os poderia ajudar...

- Não é esse menino. Tenho de pôr combustível. Tens fome?

Enquanto comiam duas sandes, a olhar o céu, ela ganhou coragem e perguntou-lhe:

- Porque estás a fazer isto?

Ele quase se engasgou, sem conseguir disfarçar um ar embaraçado. Gaguejou um pouco mas depois ganhou coragem...

- Pela mesma razão que ficas triste quando vês uma borboleta e lamentas o facto de te terem revelado aos 10 anos que elas vivem apenas umas horas... Um dia, por acaso, foste-me revelada nas ruas do Porto, a serpentar pessoas como se fossem flores. A partir daí não mais consegui aceitar que o mundo (o vosso) ficasse privado de um ser tão frágil e tão belo. 

Ela quase chorou e ele, temendo que ela realmente o fizesse, desviou novamente o olhar para o céu.

- És mesmo o meu anjo da guarda.
- Nunca fui mas prometo tentar.

Quando voltaram à estrada, ela apertou-o e encostou a cabeça no seu ombro. Sentia-se frágil como uma borboleta mas totalmente segura.
Ele sentiu-a tremer de frio e tirou uma mão do guiador para apertar as dela.

- Chegamos.

Ela deu-lhe a mão enquanto caminhavam por um longo areal, em direcção ao Farol. De repente, o outro anjo caiu à frente deles, com a força de um anjo que deixa de bater asas lá bem no alto - e que levantou no ar um círculo de sete metros de areia.

- Como ousas interferir na minha missão traidor?
- Irmão, peço-te compaixão. Por favor poupa-a. Castiga a mim.
- Sai da frente traidor.
- Não.

O anjo sentiu ira e atirou sete raios contra o peito do seu ex-colega. Ele levantou-se. Depois atirou o pior dos tornados contra ele. Chicoteado pela areia e cheio de sangue (humano)  levantou-se novamente e pô-la atras de si.

- Não! 
- Desiste traidor!

O anjo, desesperado por ver “um pedaço de carne osso” resistir como uma criatura divina, desobedeceu às regras do céu e abriu as suas asas (que, sem ele notar, se haviam tornado negras). Rodou em torno de si próprio a uma velocidade superior às (vossas) leis da física e transformou cada pena da sua asa numa lámina - que atravessou o corpo do antigo anjo.
O antigo anjo ficou a olhar o céu, sentindo o calor (único) do sangue humano envolver o seu corpo.

- Agora vens comigo.

Ela chorou mas o seu corpo, hipnotizado, obedeceu.

Caminhavam para o mar quando ele tocou no ombro do anjo de asas negras...

- Por favor irmão, deixa-a viver, aqui.

A raiva é uma coisa humana.  Uma das principais razões pelas quais  Ele se zanga convosco. Tantas vezes.
O anjo de asas negras estava, talvez, há demasiado tempo entre vós...

Sentiu uma coisa que normalmente é só vossa, tirou da cintura a faca de Caím e cravou-a no peito do seu ex-colega.

As lágrimas são uma coisa só vossa e disso tentamos não sentir inveja, para não pecarmos.

O anjo, sem conseguir largar a faca, chorou lágrimas das vossas...

- Porque me obrigaste a fazer isto?

O antigo anjo deu então um passo em direcção seu colega – trespassando o seu próprio coração. Abraçou-se a ele para não cair e quase sem fôlego, beijou-o, murmurando ao seu ouvido:

- Pela mesma razão que te perdoo, irmão.

As luzes do farol deram duas voltas, varrendo o areal. No meio delas, os dois anjos subiram ao céu. Apenas o que já não o era caiu, novamente, na areia.
Ela correu a abraça-lo...

- Fica! Fica comigo.

Levantou-o e deu-lhe um beijo humedecido em lágrimas.

Outra coisa (só vossa) que tentamos não invejar.

Caminharam em direcção à Costa Nova e as suas feridas (após o beijo) foram cicatrizando. O seu coração - aquele que realmente poderia ser trespassado – esteve sempre seguro, com ela.

- Tu és a prova  que os anjos existem, és a razão pela qual existo. – Sussurou ele, finalmente, ao seu ouvido.


Ao mesmo tempo, um estranho vento - vindo não de um ponto cardeal mas directamente do céu – abateu-se sobre o cemitério Père Lachaise, em Paris. Lentamente, foi soprando a terra que tapava uma frase gravada na campa do seu autor:

              "O mistério do amor é maior que o mistério da morte" 

Oscar Wilde


Filipe Lascasas

Para a pequena P que me falou (em revolta) sobre a palavra mais importante do dicionário.


“Come Talk to Me” – Peter Gabriel, by Bon Iver (Anjo Caído) / “Make Tomorrow”  - Peter Gabriel (Anjo da Morte) / “Green Grass Of Tunnel” – Múm + “Maps” (Accoustic version) – Yeah Yeah Yeahs ( Anjo Nascido) / “Kolnidur”- Sigur Ros (Anjo da Morte e o Caído) 

sábado, 22 de janeiro de 2011

Lençóis vermelhos



Limpou a última gota de sangue, pousou-lhe a mão na face e sorriu. Prendeu a ponta das ligaduras com o polegar e enrolou-as à volta dos pulsos, tapando as feridas dos olhos e da alma.

Este não é o fim da história mas também não é o inicio.

Encheu a banheira com água a quarenta graus – a temperatura que dizem ideal para (nestas circunstâncias) confundir o corpo e não deixar que ele incomode a alma.
Pousou a lámina no pulso direito e depois no esquerdo; escorregou para dentro de água e sentiu à sua volta um calor vermelho, que o fazia voltar ao ventre da sua mãe.
Sem realmente adormecer, entrou num sono profundo e quase logo, teve daqueles sonhos que se lembram, quando estamos acordados.
Os pais acordavam-no com um beijo e faziam-lhe uma surpresa no dia de aniversário com um bolo de iogurte. Depois pedalava na bicicleta emprestada pelo Rui, ao pôr-do-sol, num campo de tremoços. Deu dez primeiros beijos em dez amores e despediu-se de todos eles com a certeza de ser recordado. Os amigos ofereciam-lhe uma braçadeira, levantavam-se, batiam-lhe continência e nomeavam-no capitão. Ele levava alguns para a guerra, pedia-lhes que entregassem as suas vidas por ele e ganhava – todos viviam. A irmã partia um dente a fazer cambalhotas, ria, chorava e ria outra vez. Cinco bébes apertavam a mão direita no seu dedo anelar, confirmando que o ouviram e o (re)conheciam na vida e amor dos seus pais. Numa madrugada do dia de Natal estava com o seu irmão na ribeira, no mesmo estado de felicidade. A mesma estrela cadente rasgou o céu e ele pediu o mesmo desejo – aquele que ainda hoje pediria...

- O que foi?
- Uma estrela cadente... Já acabaste o café?
- Pediste um desejo?
- Acho que sim. Não sei se me precipitei mas curiosamente não foi aquele que era suposto...
- Então é porque era esse que tinha de ser pedido.

No fim de vários sonhos sobre tudo aquilo que teve, veio um pesadelo sobre aquilo que desejava ter. Visualizou com detalhe o que lhe faltava e aí abriu os olhos – para  se certificar que a água ficava vermelha, cor-de-sangue. Para ter a certeza que em breve, com pesadelos ou sonhos, a mágoa teria um fim.
A água estava já a vinte graus quando eles entraram – sem pedir licença.
Ela limpou a última gota de sangue, pousou-lhe a mão na face e sorriu um sorriso de aceitação.

- Perdoa-me mas não é assim.

Prendeu a ponta das ligaduras com o polegar e enrolou-as à volta dos pulsos, tapando as feridas dos olhos e da alma. Pegaram-no ao colo e deitaram-no numa cama que fizeram com lençóis vermelhos – cor  de sangue. Ele dormiu sozinho, em lençóis que mereciam (a sua) companhia. Dormiu e sonhou sonhos cor-de-sangue, a salvar anjos de demónios, a viver o amor verdadeiro que dormiria a seu lado em paz, sabendo estar protegida por um capitão. 

Ele apareceu na sala com os golpes cicatrizados e a cama já mudada (por ele). Estava pronto.
Fizeram a viagem em silêncio, propositadamente pelo caminho mais longo, junto ao mar. Ele olhou para as ondas e pediu-lhes força. Depois olhou para o céu e pediu-lhe um pouco de sorte.
Ela pousou-lhe a mão na face e sorriu. Prendeu a ponta das ligaduras com o polegar e enrolou-as à volta dos pulsos, tapando as cicatrizes dos olhos e da alma. Calçou-lhe as luvas, bateu-lhe nos ombros e disse:

- Estás pronto.

Ele percorreu um corredor formado por todos os que o pousaram numa cama de lençóis vermelhos, uns meses antes. Entre rir e chorar, escolheram rir. Lançaram-lhe aplausos e abraços que faziam dele já um herói. O Bruno teve dificuldade em conseguir que a braçadeira passasse pelas luvas mas conseguiu pô-la, um palmo abaixo do ombro.
Olhou para o ringue e depois para eles – de braços abertos a acenarem vitória. Entregou-lhes um sorriso de resignação, perante a eminência de uma morte certa, uma luta de David (sem fisga) contra Golias.

A luta era por amor – em nada diferente das batalhas mais importantes que se travaram no mundo... Mas isso é outra história.

Ele subiu ao ringue, bateu as luvas uma contra a outra e lançou-se à batalha.

Não há nenhum mal em morrer... Isso acontece;  a todos.
 É a forma como se morre que conta. Por isso não deixes alguém morrer por desistir. Liga-lhe os pulsos e faz-lhe a cama com lençóis de coragem e dignidade. Depois deixa-o morrer... Mas a lutar.

Ao primeiro soco caiu. Mas levantou-se. Ao sétimo soco caiu outra vez mas estava a ganhar, já desde o primeiro.

Este não foi o fim da história, foi o ínicio.


Filipe Lascasas



Aos que me fizeram a cama.



Para ouvir com: "Waiting For The End" - Linkin Park 

Obrigado.



Estou de  volta. Fiz algumas viagens e tenho algumas histórias para contar... . Espero que gostem.
Não vi baleias a dançar mas quase... As viagens vão por isso continuar.
(Obrigado por esperarem e pelos e-mails, sms's e bilhetes a pedir histórias.)


Filipe Lascasas

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Devia ser todos os dias...

Mas não é. Por isso - concentrado naquele que efectivamente existe - desejo que este Natal seja para todos os que por aqui passaram, um dia particularmente mais feliz que os anteriores e muito semelhante aos que virão.

Agradeço a 5 pelo postal original e motivador que me enviaram. Em troca, acedo como é óbvio, ao pedido de voltar a publicar aquilo que eles consideram ser a minha única história de Natal.




A Árvore


O Aviso foi lançado em milhares de papelinhos brancos, espalhados por um vento de Dezembro que cumpria a função de uma brisa primaveril. Sobre os casacos e sobretudos nevou o desafio: 


“A maior árvore de Natal do mundo será construída. Decorem-na com dependências, sonhos e frustrações”.


No primeiro dia, a decoração era tão feia quanto óbvia – centenas de maços de tabaco, seringas e caixas de anti depressivos compunham os ramos superiores da árvore. Mas reconheço que a combinação tinha o seu encanto.
Ao terceiro dia, 24 pintores juntaram-se e entregaram os seus pincéis e paletas de cores. A árvore ganhou vida. Exprimia-se por cores, chorava e ria. Os que passavam por ela paravam e questionavam: “O que será que quer dizer?”
Uns dias depois, foi a vez de alguns poetas rasgarem as folhas dos seus cadernos para taparem os ramos despidos da árvore. A árvore começou a falar. Muitos correram para assistir a tal fenómeno, mas a visita durava pouco tempo, perante o som ensurdecedor de tantas palavras. Os que fugiam dela, com as mãos nos ouvidos, gritavam: “Ouvi a árvore falar muitas coisas, mas o que será que ela queria dizer?”
Nos dias que se seguiram, a peregrinação de decoradores foi contínua e os ramos encheram-se. As dependências abanavam ao vento e assobiavam cantos de sereia. Os sonhos acendiam-se e apagavam-se numa intermitência tão acelerada, que quem os via, questionava se os tinha visto mesmo iluminados. As frustrações assumiram a forma de cartas dirigidas a um homem de barbas brancas e vestes vermelhas – inventado por um refrigerante. 
Na semana em que todos os comerciantes sorriem, a árvore estava tão cheia que quase tombava. Milhares de pessoas viviam à sua volta, olhando para ela quase sem se mexerem. No entanto, o olhar contemplativo que a imponência da obra deveria provocar, foi substituído por um outro, vazio e desesperado...
No dia 23, uma leve brisa transformada em vento de Inverno, chocou contra a árvore e um maço de tabaco caiu ao chão. Um homem de trinta anos com aspecto de cinquenta, começou a tremer no meio da multidão e numa convulsão contínua, correu para a árvore. Abriu o maço e a tremer, acendeu um cigarro. Os outros viram o fumo branco (tão poderoso em Roma) e correram para a árvore como se fugissem de um incêndio. Em segundos, criou-se um cenário ainda mais deprimente do que as filas de caixa dos centros comerciais, nascidas na mesma altura... Velhinhas atropeladas, crianças a chorar, mães à procura dos filhos, pais esquecidos de que tinham filhos... Arrancavam decorações da árvore com a força que utilizariam para desmembrar alguém. Amealhavam dependências estranhas, coleccionavam frustrações alheias e pisavam sonhos que outros haviam sonhado.
Apesar do caos, todos abandonaram o lugar com um olhar brilhante e feliz. Muitos ainda falaram em usar a árvore para lenha, mas já não havia tempo, as lojas estavam prestes a fechar.
Às onze horas do dia 24 de Dezembro a árvore estava depenada. Nem uma “pinha” de frustrações; nem um emaranhado de dependências; nem uma fiada de sonhos intermitentes piscava... 

Porém, a estrela permaneceu. Ninguém a retirou. A maioria acredita que foi por estar alta de mais, mas alguns questionam se quem lá a pôs, precisava realmente dela.

Filipe Lascasas

Para ouvir com: "Go Do" - Jónsi

domingo, 19 de dezembro de 2010

O Segredo


...e no postal do 56º aniversário vou escrever-lhes:

"Amor intemporal" é uma espécie de indiferença aos defeitos que carregas... E um pequeno palco -  montado pelos que te amam - onde apenas dançam  as virtudes que te tornam único.   

Saibas escutar, sorrir e agradecer as palmas.

Filipe Lascasas

domingo, 12 de dezembro de 2010

31 dias... anjos e demónios


Não acreditas em anjos. 
Existem  muitas coisas em que não acreditas por falta de procura, por falta de viagens. 
Se não acreditas em ti, poderás até viajar mas nada encontrarás. A não ser, talvez, anjos e demónios.

Fui visitar alguns e (talvez por se aproximar o natal) acederam contar-me histórias - recordações suas. 
Tirei uma foto a um. Não procurava baleias mas sim golfinhos. Ao contrário de mim, sabia o que procurava.

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terça-feira, 30 de novembro de 2010

19 dias... O Pavilhão Chinês (Lx) é mesmo bonito!



- Não te vejo mochilas em redor mas o teu olhar parece-me de viajante...
- Essa foi a melhor coisa que me disseram num mês! Queres uma sandes?
- Aceito as sandes com a companhia. E então?
- Então?!?
- És um viajante?!
- Sou um viajante-falso... Ando a fazer pequenas viagens, em folgas, à procura de histórias, à procura de balei... de mim.

Se encontrares um viajante-verdadeiro – um que o é depois da idade em que o Cartão Jovem expira, que partilha sandes, crava cigarros e não gasta dinheiro em quartos de hotel – tira-lhe uma foto... Encontraste a mais solitária e egoísta das criaturas.

(Tirei-lhe uma foto).

Um viajante- falso não sabe para onde ir; um verdadeiro, não tem para onde voltar. Não tem amigos, pais, recordações de berço – aquelas que ficam de todas as vezes em que renasceste, numa só vida – esta.

Atestei o carro ontem – à meia-noite – e marquei um compromisso. Deixei-a à espera (ou talvez não) na Estação de Serviço de Oeiras.
À hora combinada, estava bem longe – no Pavilhão Chinês (pela primeira vez) – acompanhado de recordações (pessoas) que serão de berço.

Depois de seres (ou mesmo sempre tendo sido) viajante-falso, marcarás compromissos de viagem que na verdade, só cumpririas antes da data de expiração do Cartão Jovem (a antiga).
Quando se falha um compromisso, o adjectivo “egoísmo” é normalmente um dos adequados. Porém, se és um falso viajante, serás apenas egoísta se privares os que te amam da tua companhia. É para isso/esses que existem as férias.  

Hoje perdi histórias mas ganhei recordações.

Filipe Lascasas


Perdoa-me Anna Reinsoo... Norte é norte (venho de lá).